Entre 10 de setembro e 6 de outubro, as semanas de moda de Nova York, Londres, Milão e Paris apresentaram as coleções de primavera/verão 2027 em uma temporada de retornos aguardados, estreias criativas e revisões dos códigos de grandes grifes. As apresentações também trouxeram à tona questões que ultrapassam as passarelas, como o bem-estar animal e a necessidade de aproximar as propostas das marcas das transformações do mercado.
Ao longo de quase um mês, cada capital evidenciou uma dimensão desse cenário. Nova York reuniu nomes tradicionais e colocou em pauta a sustentabilidade; Londres trouxe de volta casas históricas e ampliou a presença de grandes varejistas; Milão acompanhou os primeiros desdobramentos de mudanças na direção criativa de grifes italianas; e Paris encerrou o calendário com diferentes interpretações do luxo, entre referências históricas, experimentação estética e roupas voltadas ao cotidiano.
Nova York: retornos aguardados e o debate sobre sustentabilidade
Realizada entre 10 e 15 de setembro, a New York Fashion Week abriu o calendário internacional de semanas de moda com uma programação marcada pelo reencontro de nomes conhecidos e pela apresentação de novas perspectivas criativas. Um dos momentos de destaque foi o retorno de Diane von Furstenberg às passarelas após quase uma década, em um desfile que também marcou a estreia de Henry Zankov como diretor artístico da marca.
Outros retornos movimentaram a agenda, como os de Tommy Hilfiger, Monse e threeASFOUR. A Coach, por sua vez, aproveitou a ocasião para celebrar seus 85 anos. Na apresentação da Tommy Hilfiger, referências ao estilo preppy apareceram em combinações de cores contrastantes e proporções atualizadas, em uma abordagem voltada às novas gerações. A proposta evidenciou como marcas tradicionais podem revisitar elementos de sua identidade para acompanhar as mudanças de público e comportamento.

Gigi Hadid desfila pela Tommy Hilfiger durante a edição de Primavera 2027 da NYFW no The Plaza Hotel, em 10 de setembro de 2026, na cidade de Nova York. (Foto de Noam Galai/Getty Images para a Tommy Hilfiger)

Modelo desfila pela Tommy Hilfiger durante a edição de Primavera 2027 da NYFW no The Plaza Hotel, em 10 de setembro de 2026, na cidade de Nova York. (Foto de Noam Galai/Getty Images para a Tommy Hilfiger)
Em outras apresentações, diferentes interpretações de códigos já associados às grifes ganharam espaço. Veronica Leoni explorou a sobriedade do minimalismo na Calvin Klein, enquanto Michael Kors combinou formas depuradas, cortes assimétricos e cores intensas. Na Tory Burch, o trabalho com texturas e contrastes orientou a composição dos looks. Ralph Lauren, por sua vez, abriu seu desfile com uma seleção predominantemente branca e azul-marinho, reforçando a simplicidade das formas e da cartela cromática.

Modelo desfila para Calvin Klein durante Verão 2027 da NYFW, na cidade de Nova York. (Foto: Launchmetrics Spotlight)

Modelo veste peça branca e tiara dupla. (Crédito: Launchmetrics Spotlight: Calvin Klein)
A programação também abriu espaço para referências culturais e experimentações com materiais e volumes. A PatBo incorporou elementos da arquitetura e do paisagismo modernistas brasileiros. Na Area, Nicholas Aburn estreou na direção criativa ao aproximar o jeans de superfícies brilhantes e formas volumosas, com efeito escultural. Já Rachel Scott articulou técnicas artesanais e alfaiataria na Diotima, em um trabalho que também destacou a diversidade de corpos contemplados pelas criações da marca.
Para além das apresentações, a edição trouxe à tona discussões sobre sustentabilidade e bem-estar animal. Em dezembro de 2025, o Council of Fashion Designers of America (CFDA), entidade responsável pelo calendário oficial da New York Fashion Week (NYFW), anunciou a proibição do uso de peles de animais na programação. Em 13 de setembro, a apresentação da COS foi interrompida por ativistas da People for the Ethical Treatment of Animals (PETA), organização dedicada à defesa dos direitos animais, em um protesto contra o uso de lã.

Ativistas do PETA invadem desfile da NYFW. Foto Getty Images
O episódio evidenciou divergências sobre os critérios ambientais e éticos adotados pela indústria da moda. A repercussão também envolveu Steven Kolb, CEO do CFDA, que interveio pessoalmente para impedir que outros ativistas alcançassem a passarela. Durante a ação, ele arrancou cartazes, colocou as mãos sobre a boca de manifestantes e, em um dos casos, usou as próprias pernas para conter uma ativista.
Londres: casas históricas e a disputa pelo espaço criativo
Realizada entre 17 e 21 de setembro, a London Fashion Week foi marcada pelo retorno de grifes tradicionais e pela presença de grandes varejistas em sua programação. Alexander McQueen voltou ao calendário oficial londrino após 25 anos, sob a direção criativa de Seán McGirr. A Mulberry também retomou as apresentações, com Christopher Kane à frente da criação.

Modelo usa terno risca de giz e penteado em formato de chifres no desfile da Alexander McQueen Verão 2027. (Foto: Divulgação)
Responsável por encerrar a programação, a Burberry apresentou uma colaboração entre Daniel Lee e a designer têxtil Celia Birtwell. A coleção combinou reuniu alfaiataria de caimento descontraído, jaquetas esportivas e jeans de aspecto robusto.
Entre as estilistas autorais, Simone Rocha explorou uma estética mais jovem e provocadora, com sensualidade sutil, afastando-se do romantismo associado a parte de seu trabalho anterior. Roksanda, por sua vez, encontrou inspiração na escultora têxtil Françoise Grossen, conhecida por grandes esculturas produzidas com cordas, fibras e técnicas de trançado.
A semana também abriu espaço para grandes redes varejistas. A Marks & Spencer realizou seu primeiro desfile no calendário de moda e celebrou um século de atuação no setor com uma apresentação no Design Museum, em formato see now, buy now, no qual os produtos ficam disponíveis para compra próximo ao momento em que são apresentados. A H&M também integrou a programação com uma apresentação desenvolvida em parceria com Nick Knight e o SHOWstudio, plataforma criativa dedicada à experimentação entre moda e imagem.

Alex Consani usa jaqueta sobre blusa de renda e calça branca no desfile de Primavera/Verão 2027 da H&M durante a London Fashion Week (Foto/Reprodução: H&M)
Milão: novas direções criativas começam a delinear suas identidades
Realizada entre 22 e 28 de setembro, a Milan Fashion Week colocou em evidência uma fase de mudanças para algumas das principais casas italianas. Entre estreias, novas interpretações de códigos históricos e despedidas, as coleções revelaram diferentes caminhos para a construção das identidades criativas dessas marcas.
Na Gucci, Demna aproximou o desfile do ambiente comercial da grife, usando esse cenário como pano de fundo para uma proposta que reuniu referências equestres, elementos da elegância burguesa milanesa e o glamour dos anos 1990. A combinação de diferentes códigos estéticos apontou para uma leitura particular da herança da casa sob o novo comando criativo.

Modelo usa casaco texturizado nos ombros e saia preta no desfile de Primavera/Verão 2027 da Gucci. (Foto: Divulgação Gucci)
Na Prada, Miuccia Prada e Raf Simons colocaram a saia no centro da coleção e investigaram as possibilidades da peça por meio de variações de comprimento, materiais, sobreposições e acabamentos. A proposta explorou diferentes maneiras de trabalhar uma peça cotidiana, com mudanças de proporção e combinações que ampliaram suas possibilidades de styling.
Na Fendi, Maria Grazia Chiuri explorou a relação entre o corpo e o vestuário a partir da ideia da roupa como uma segunda pele. Elementos tradicionalmente associados à lingerie migraram para o exterior dos looks, com peças íntimas aparentes ou combinadas às demais criações. Rendas, bordados e uma cartela cromática variada reforçaram essa aproximação entre o universo da roupa íntima e o vestir cotidiano.
Na Marni, Meryll Rogge brincou com a escala e a construção das peças. Forros, aberturas e camadas internas também ficaram à mostra, transformando elementos normalmente discretos da confecção em parte central da composição visual. Já na Giorgio Armani, Silvana Armani trabalhou com jaquetas inspiradas na alfaiataria masculina, alongadas e de caimento fluido.
A Moschino também iniciou um novo capítulo com Loris Messina e Simone Rizzo, à frente da direção criativa. A dupla buscou preservar o espírito irreverente da grife sem repetir literalmente suas fórmulas consagradas, aproximando a experimentação de um guarda-roupa cotidiano. O humor apareceu em proporções exageradas e construções volumosas.

Modelo usa camisa, saia valumosa verde, bolsa amarela e sapatos de salto azuis no desfile da Moschino Primavera/Verão 2027. (Foto: Divulgação)
A temporada foi encerrada por uma despedida importante para a Diesel, com a saída de Glenn Martens. A coleção reuniu peças desconstruídas, superfícies marcadas por texturas e efeitos de desgaste intencional. O resultado evocou roupas de quem atravessou horas de festa, em sintonia com a estética urbana e noturna que caracterizou a noite.
Paris: o luxo busca aproximar identidade e cotidiano
Realizada entre 28 de setembro e 6 de outubro, a Paris Fashion Week encerrou o calendário internacional de primavera/verão 2027. A programação reuniu maisons consolidadas, estreias na direção criativa e o retorno de marcas às passarelas parisienses.
Na Chanel, Matthieu Blazy apresentou sua terceira coleção feminina para a maison, inspirada na evolução do estilo de Gabrielle Chanel. A proposta resultou em sua coleção mais versátil até então, com uma leitura que percorre diferentes momentos da trajetória estética da fundadora. Na Balenciaga, Pierpaolo Piccioli adotou uma abordagem marcada pela leveza e pela casualidade, distanciando-se da estética que caracterizou a gestão anterior de Demna.

Anok Yai usa vestido longo fluido de tom rosa-claro com gola alta e transparência no desfile da Balenciaga Verão 2027 em Paris. (Foto: Launchmetrics Spotlight)
Na Dior, Jonathan Anderson também explorou a leveza, tanto na aparência quanto na materialidade das criações. O resultado foi uma coleção de abordagem despretensiosa, com looks que reduziram a sensação de peso visual. Já na Loewe, Jack McCollough e Lazaro Hernandez combinaram referências esportivas, construções leves e elementos resgatados do arquivo da grife, articulando diferentes aspectos de sua identidade.
Na Celine, Michael Rider apostou em uma atmosfera inspirada nos anos 1980, com silhuetas esculturais e acessórios de proporções marcantes, além de referências ao grunge do início da década seguinte. Na Miu Miu, Miuccia Prada explorou volumes, texturas e combinações inesperadas.
Na Valentino, Alessandro Michele apresentou a coleção intitulada Antilibrary. As roupas foram concebidas como relíquias imaginativas, em uma proposta que ultrapassa a funcionalidade comercial convencional e atribui às peças uma dimensão simbólica. A Maison Margiela explorou vestidos ornamentados e tecidos florais em referências visuais aos anos 1960.
Outro marco da temporada foi a coleção de Anthony Vaccarello para a Saint Laurent, que marcou o encerramento de seu ciclo à frente da direção criativa da maison, após cerca de uma década no cargo. Sua saída concluiu uma etapa dedicada à releitura dos códigos históricos da marca. Nicolas Ghesquière encerrou a semana com a apresentação da Louis Vuitton, fechando também o calendário internacional de desfiles.


