A representação da mulher na fotografia de moda nunca foi neutra. Desde sempre, ela opera por meio de um sistema de signos que organiza quem ocupa o lugar de sujeito do olhar e quem é reduzido ao corpo observado. Em Système de la Mode (1967), Roland Barthes demonstrou que a moda funciona como uma linguagem. Cada roupa, cada pose, cada escolha sobre o que revelar ou ocultar produz sentido. Quando essa linguagem é usada sistematicamente para fragmentar e silenciar o corpo feminino, ela deixa de ser apenas estética para se tornar discurso.
Foi nesse contexto que Guy Bourdin construiu sua carreira. Suas primeiras imagens foram publicadas na edição de fevereiro de 1955 da Vogue França, e já ali sinalizavam o tom do que viria. Contratado pela editora Edmonde Charles-Roux, Bourdin levou modelos para fotografar chapéus diante de cabeças de bezerros mortos com as línguas para fora. A publicação marcou o início de uma linguagem visual que a crítica especializada chamaria, nas décadas seguintes, de ousadia, inovação e subversão.

Foto/Reprodução: Guy Bourdin | Instagram: @guybourdinofficial
Em toda a obra de Bourdin, o corpo feminino aparece submetido a uma gramática visual marcada pela fragmentação, pela violência e pela sexualização. Suas imagens mostram pernas sem corpo, mulheres desmaiadas, amarradas sob trilhos de trem, deitadas em poças de sangue ou retratadas de forma sexualizada. Setenta anos depois, um sistema de signos semelhante reaparece no tapete vermelho do Grammy, em fevereiro de 2025. Bianca Censori, arquiteta e modelo australiana e esposa do cantor Kanye West, deixou um casaco de pele cair aos próprios pés, revelando um vestido completamente transparente. Ao seu lado, o marido permanecia totalmente vestido.

Bianca Censori e Kanye West no tapete vermelho do Grammy 2025 (Foto/Reprodução: Allen J. Schaben/Los Angeles Times/Getty Images)
A modelo Amber Rose, que se relacionou com West entre 2008 e 2010, descreveu o mecanismo por trás dessa construção de imagem em entrevista ao podcast Club Shay Shay. Segundo ela, West se envolve ativamente no estilo das mulheres com quem se relaciona e busca moldar a imagem delas: “Kanye, com certeza, está vestindo [Bianca] assim. Ele fez o mesmo comigo e com a Kim. É só quem ele é. Ele quer que outros homens desejem sua mulher, é disso que ele gosta”, declarou.
Esse relato desloca a análise ao mostrar que a escolha sobre o que Censori veste, ou deixa de vestir, pertence a West. A CNN Brasil revelou que fontes internacionais apontam que as roupas usadas por Bianca, normalmente criações do estilista Gadir Rajab, são escolhidas a dedo pelo cantor, que a enxerga como uma musa para suas criações. O que está em disputa não é a escolha ou performance estética isolada em si na imagem do feminino, mas a autoria do signo e a quem ele serve.
A cobertura midiática dos dois casos revela mudanças importantes na forma como essas representações são recebidas. Durante décadas, a obra de Guy Bourdin foi celebrada como uma expressão de genialidade e transgressão, enquanto a violência presente em suas imagens raramente era problematizada. A crítica privilegiou a inovação estética do fotógrafo, mas pouco questionou o que significa transformar a violência sistemática contra mulheres em linguagem visual.

Foto/Reprodução: Guy Bourdin | Instagram: @guybourdinofficial
No caso das aparições de Bianca Censori, o debate público passou a ser mais frequente. Ainda assim, grande parte da cobertura continua oscilando entre a ideia de “performance artística” e a de “estratégia de mídia”, sem discutir de forma mais profunda o fato de que essa estratégia depende da exposição constante do corpo de uma mulher. A obra de Bourdin não era perturbadora apenas como estética. Ela tinha fonte de inspiração muito concreta na vida real do fotógrafo. De acordo com a reportagem de 2009 da Plastik Magazine, Holly Warner, uma de suas parceiras, tentou suicídio. Eva Gschopf, modelo e namorada, morreu em circunstâncias não esclarecidas. Sybille, então companheira de Bourdin, foi encontrada enforcada no apartamento em que viviam. Sua esposa, Solange Gèze, também morreu sob circunstâncias controversas. Ex-parceiras relataram isolamento, controle e comportamentos abusivos sistemáticos.
A ex-modelo Louise Despointes narrou à revista The New Yorker, em 1994, uma sessão fotográfica para a Vogue em que Bourdin quis cobrir os corpos das modelos inteiramente com cola e pérolas. Quando elas desmaiaram por não conseguirem respirar, o editor interveio dizendo que as garotas poderiam morrer. Bourdin respondeu que seria lindo vê-las mortas na cama. West também aparece associado a acusações envolvendo mulheres. Entre elas estão as alegações de assédio sexual feitas por uma ex-assistente pessoal e um processo no qual foi acusado de agressão e de submeter uma modelo a situações consideradas degradantes.
Em 2025, de acordo com informações publicadas pelo Daily Mail, West perdeu um contrato estimado em cerca de vinte milhões de dólares para apresentações no Tokyo Dome, no Japão. O cancelamento ocorreu após a reação negativa de patrocinadores e investidores locais à exposição pública do casal, interpretada como gesto de controle inaceitável no contexto cultural japonês. A avaliação de fontes ouvidas pelo veículo foi a de que o artista subestimou a sensibilidade do público local em relação ao tema.

Bianca Censori e Kanye West na Suíça (Foto/Reprodução: The Grosby Group)
Admirar a inovação técnica de Bourdin sem questionar o que ele fotografava é participar de um sistema que converteu o sofrimento de mulheres em patrimônio cultural. Aceitar as aparições de West e Censori como jogo de marketing sem perguntar quem decide o que será exposto e a que custo é participar do mesmo sistema com outro verniz.
Isso implica um olhar que recuse tratar exposição como sinônimo automático de liberdade, e controvérsia como sinônimo automático de arte. Que Censori tenha defendido publicamente suas escolhas como expressão própria é um dado relevante, mas não resolve a questão de fundo, que é a de quem, de fato, determina a gramática visual dessas aparições.
A semiótica da moda nos ensina que todo signo carrega a intenção de quem o produz. Quando essa intenção sistematicamente posiciona o corpo feminino como superfície e o sujeito masculino como autor, o que se produz ultrapassa a imagem. Produz-se hierarquia. E a moda, enquanto indústria, ainda tem muito a responder pela velocidade com que aprendeu a aplaudir antes de perguntar o que estava vendo.











