Em 1º de outubro de 2026, a Zara colocou à venda a primeira coleção assinada por John Galliano. Batizada de Re{form}, ela reúne peças do estoque da própria marca, cortadas, viradas do avesso e remontadas pelo estilista. É a primeira de quatro coleções previstas na parceria de dois anos anunciada em 17 de março.
Entre o anúncio da parceria e o lançamento, o designer britânico ganhou e perdeu uma das maiores homenagens que a moda pode oferecer. Em 31 de julho, o Metropolitan Museum of Art, em Nova York, anunciou “John Galliano: Horizons”, uma retrospectiva prevista para maio de 2027 e associada ao Met Gala daquele ano. A reação veio em poucos dias. A biógrafa Dana Thomas criticou a escolha no New York Times; doadores, políticos e lideranças judaicas também se manifestaram. Até a Anti-Defamation League (ADL), que anos antes havia aceitado as desculpas do estilista, disse compreender os questionamentos.
Exatamente um mês depois do anúncio, em 31 de agosto, foi o próprio estilista quem recuou. Em nota publicada no Instagram, disse ter decidido, “após muita reflexão e conversa com todos os envolvidos” e “com grande tristeza”, que a exposição não deveria acontecer naquele momento. Escreveu que continua “totalmente responsável pela dor causada” por suas palavras, em particular às comunidades judaica e asiática, e que reconhece que uma homenagem ao seu trabalho seria dolorosa para alguns. Afirmou ainda que não queria que o debate em torno dele colocasse o Met em uma posição difícil. O museu acatou a decisão.
A Zara seguiu outro caminho. Quando anunciou a parceria, em março, em meio a um esforço para posicionar a marca em um patamar mais sofisticado, a rede espanhola também enfrentou reações, resumidas pela Vogue em três palavras: “ira, incredulidade, intriga”. Segundo a revista, porém, elas foram menos numerosas e menos intensas do que as provocadas pelo anúncio do Met. A varejista manteve a aposta no estilista e, um mês após a desistência da exposição, colocou nas lojas a coleção desenvolvida por Galliano, com peças do próprio acervo da Zara.
O descompasso diz muito sobre como a moda lida com John Galliano desde 2011, quando ele foi filmado dizendo “eu amo Hitler” em um bar, na cidade de Paris. O estilista foi demitido e a Justiça francesa o condenou. Ainda assim, voltou a ser chamado de gênio, muitas vezes pelos mesmos nomes e veículos que acompanharam sua queda. A pergunta que atravessa os últimos quinze anos não é se ele tem talento, coisa que ninguém discute, mas quanto o talento compra.

Campanha da coleção Re{form} Zara by John Galliano. Créditos: Zara.
“O rei da moda de Paris”
Para cair, é preciso antes chegar ao topo, e era ali que o estilista britânico estava, depois de quase três décadas de carreira. Nascido em Gibraltar em 1960 e criado no sul de Londres, ele começou a chamar a atenção ainda como estudante da Central Saint Martins, onde é lembrado como um dos maiores prodígios da história da escola. Sua coleção de formatura, “Les Incroyables”, inspirada nos dândis da França pós-revolucionária, foi comprada inteira pela butique londrina Browns e, logo depois, em 1984, ele lançou a marca que leva seu nome.
Os primeiros anos foram instáveis. A marca trocou de investidores mais de uma vez e se mudou para Paris em 1989. Em 1993, após o fim de um acordo de financiamento, chegou a ficar fora de uma temporada de desfiles. A virada veio em 1994. Com a ajuda de Anna Wintour e André Leon Talley, da Vogue americana, Galliano encontrou novos investidores.
Um ensaio de Steven Meisel para a Vogue ajudou a mostrar o potencial de Galliano a possíveis investidores. Com o apoio articulado de Anna Wintour e André Leon Talley, o estilista apresentou, em 1994, uma coleção de 17 looks, quase todos em crepe preto. O desfile consolidou seu nome em Paris. Em julho de 1995, Bernard Arnault, à frente da LVMH, nomeou John Galliano como estilista-chefe da Givenchy. Pouco mais de um ano depois, em outubro de 1996, Galliano assumiu a Dior, sem deixar o comando da marca própria, que mais tarde passaria a estar sob o controle da casa.
Em quase quinze anos à frente da Dior, tornou-se um dos nomes mais celebrados de sua geração e foi eleito quatro vezes Designer Britânico do Ano. Seus vestidos cortados em viés, que escorriam pelo corpo, e seus desfiles teatrais, com cenários e maquiagens elaborados, transformaram a casa em um fenômeno da cultura pop. Para Hilary Alexander, então diretora de moda do Daily Telegraph, ele “levou a Dior para o século 21”. O próprio Galliano diria, anos depois, que sua criatividade ajudou a transformar a Dior em um negócio de um bilhão de dólares. Em 2009, a França lhe concedeu a Légion d’honneur, a mais alta condecoração do país, criada por Napoleão em 1802. O The Guardian o definiria como o autor que redefiniu a moda dos anos 1990 e o “rei da moda de Paris”.
O prestígio ia além das passarelas. Kate Moss, amiga de longa data, conta que foi ele quem a ensinou a desfilar. Anna Wintour, que a ajudara a se reerguer em 1994, seguiria sendo sua defensora por décadas. No tapete vermelho, estrelas como Nicole Kidman e Sharon Stone disputavam seus vestidos. E Steven Meisel, que o estilista considera um de seus maiores apoiadores, voltaria a cruzar seu caminho. Em fevereiro de 2011, bastou menos de uma semana para que o “rei da moda de Paris” começasse a perder o trono.

Imagem de John Galliano. Créditos: Kevin Tachman.
A queda
Em 24 de fevereiro de 2011, a curadora de museu Géraldine Bloch e seu amigo Philippe Virgitti, de origem sul-asiática, tomavam cerveja na calçada do bar parisiense La Perle, quando Galliano, na mesa ao lado, mandou que ela calasse a boca e criticou sua roupa, seu cabelo, suas coxas, suas sobrancelhas e sua maquiagem. Segundo o relato feito por ela às autoridades, ele proferiu cerca de 30 insultos antijudaicos em 45 minutos, entre eles “fucking ugly Jewish bitch”. A Virgitti, ele se dirigiu com a expressão “fucking Asian bastard”. A polícia o levou detido, bêbado.
Com o caso vindo a público, a Dior suspendeu o estilista no dia seguinte. Três dias depois, às vésperas da Semana de Moda de Paris, o caso ganhou outra dimensão quando o tabloide The Sun publicou um vídeo gravado meses antes, em dezembro de 2010, no mesmo bar. Nele, John Galliano dizia a duas mulheres na mesa ao lado: “eu amo Hitler. Gente, como vocês estariam mortos hoje. Suas mães, seus antepassados estariam mortos, mortos com gás”. Na mesma noite, Natalie Portman divulgou uma nota de repúdio. Rosto do perfume Miss Dior Chérie, ela havia ganhado o Oscar de melhor atriz na véspera e se recusou a comentar a suspensão nos bastidores da premiação.
Em 1º de março, um dia após a publicação do vídeo, a Dior demitiu o estilista, após quase quinze anos na direção criativa. O presidente da casa, Sidney Toledano, que é judeu, condenou “inequivocamente” as declarações “em total contradição com os valores centrais” da marca. No dia seguinte, Galliano divulgou uma nota em que pediu desculpas “sem reservas” por ter sido visto “comportando-se da pior forma possível”, mas negou as acusações feitas pelo casal. No mesmo dia, a promotoria de Paris anunciou que ele seria julgado. Em 15 de abril, o britânico também perdeu a marca que levava seu nome, controlada pela Dior, e Toledano disse que não queria trabalhar com ele “nunca mais”.
O processo revelou que aquele não tinha sido o primeiro episódio. Em 8 de outubro de 2010, outra mulher havia passado por algo semelhante no mesmo bar, e sua queixa foi julgada juntamente com as de Bloch e Virgitti. Associações francesas antirracistas também entraram com ações. O vídeo foi exibido no tribunal, mas não integrou a acusação. No julgamento, em 22 de junho de 2011, Galliano disse não se lembrar de nada. Atribuiu o comportamento a um vício triplo em álcool, soníferos e no ansiolítico Valium, que vinha se agravando desde 2007, ano em que seu braço direito, Steven Robinson, foi encontrado morto com sete gramas de cocaína no organismo. Falou de ataques de pânico, de não conseguir trabalhar sem Valium e da pressão para multiplicar as linhas após a crise financeira. Sobre o vídeo, ele afirmou: “não são opiniões que eu tenha. Vejo alguém que precisa de ajuda, alguém vulnerável. É a casca de John Galliano”. Desta vez, pediu desculpas às vítimas.
A promotora não o tratou como ideólogo. Disse que ele não era um “teórico” do ódio racial, mas que aquilo era “antissemitismo e racismo cotidianos”. Em 8 de setembro de 2011, o estilista foi condenado por injúria pública baseada na origem, religião, raça ou etnia. Recebeu duas multas suspensas que somam 6 mil euros. A suspensão levou em conta o pedido de desculpas no tribunal, e os juízes registraram que ele tinha “consciência suficiente do ato, apesar do vício”. Ele também foi condenado a pagar as custas processuais dos denunciantes e das associações, além de 1 euro simbólico de indenização a cada um. Em 2012, a França retirou a Légion d’honneur que lhe havia concedido três anos antes. O caso estava encerrado na Justiça. Na moda, a discussão estava apenas começando.

Anna Wintour e John Galliano durante celebração da Dior pela reabertura de sua boutique na 57th Street, em Nova York, em 2010. Créditos: Dimitrios Kambouris (WireImage_Getty Images)
O caminho de volta
Depois da condenação, Galliano saiu de cena. Desde fevereiro, ele vinha se tratando: passou dois meses em uma clínica de reabilitação no Arizona, nos Estados Unidos, e seguiu o tratamento na Suíça. O exílio, porém, foi curto e cercado de amigos. Ainda em 2011, Kate Moss, amiga de longa data, o escolheu para desenhar seu vestido de noiva, inspirado nos anos 1920. O designer britânico chamou o projeto de sua “reabilitação criativa”. A influente stylist americana Patricia Field classificou as falas dele como “teatro” e chegou a enviar e-mails intitulados “Em defesa de John Galliano”.
A volta ao circuito oficial começou em janeiro de 2013. Por articulação de Anna Wintour, amiga dos dois, Galliano passou três semanas no ateliê de Oscar de la Renta, em Nova York, e ajudou discretamente na coleção de outono do estilista. “Ele trabalhou longamente e duramente em sua recuperação”, disse De la Renta. Na mesma época, o estilista falou pela primeira vez abertamente sobre o vício ao Women’s Wear Daily (WWD), principal publicação do setor nos Estados Unidos: “sou alcoólatra. Estou em recuperação há dois anos. Disse e fiz coisas que magoaram outras pessoas, especialmente membros da comunidade judaica”. A Anti-Defamation League, uma das principais entidades de combate ao antissemitismo nos Estados Unidos, endossou o recomeço. Seu diretor, Abraham Foxman, contou que o estilista se reuniu com a organização várias vezes e havia demonstrado “verdadeira contrição”.
Nem todos se convenceram. Em maio de 2013, a Parsons School of Design, uma das escolas de moda mais prestigiadas de Nova York, cancelou uma masterclass de três dias com o estilista. O motivo foi a recusa dele em ter uma “conversa franca” com os alunos sobre a própria trajetória. Um mês depois, o designer britânico deu à Vanity Fair sua primeira entrevista desde o escândalo. Disse estar sóbrio há dois anos e “grato” pela queda. “É a pior coisa que eu disse na vida, mas eu não quis dizer aquilo”, afirmou. “Eu estava tão irritado e tão descontente comigo mesmo que simplesmente disse a coisa mais maldosa que pude”.
O retorno definitivo veio em outubro de 2014, quando o grupo italiano OTB, o Only The Brave, holding italiana de moda fundada em 2002 por Renzo Rosso, criador da Diesel, o nomeou Galliano diretor criativo da Maison Margiela, a casa fundada pelo estilista belga Martin Margiela. Foram dez anos que, segundo o Le Monde, ajudaram a recuperar sua imagem. O auge veio em janeiro de 2024, com um desfile de alta-costura sob a ponte Alexandre III, em Paris, marcado pela maquiagem de efeito porcelana da maquiadora Pat McGrath e recebido com cinco minutos de aplausos de pé. O WWD previu que ele entraria “nos livros de história”. Meses depois, as criações de Galliano tiveram forte presença no tapete vermelho do Met Gala. Ele deixou a Margiela em dezembro daquele ano.
Em março de 2024, estreou High & Low: John Galliano, documentário de Kevin Macdonald, diretor de O Último Rei da Escócia. O filme tem como produtora associada a Condé Nast, editora da Vogue. O ex-diretor criativo da Dior passou cinco dias diante da câmera e abriu a primeira conversa prometendo “contar tudo”. Wintour, Moss e Naomi Campbell aparecem em sua defesa. Ele afirma que não fez o filme para ser perdoado, mas para ser “um pouco mais compreendido”.
O documentário, porém, não esclarece a origem do antissemitismo. Um rabino que orientou Galliano observou que ele sabia muito pouco sobre o Holocausto. Seu psiquiatra supõe que ele recorreu, quase ao acaso, a um estereótipo de ódio presente na cultura. Toledano, responsável pela sua demissão da Dior, levanta a hipótese de que o preconceito viesse da criação católica espanhola. O estilista diz ter pedido desculpas a Philippe Virgitti, um dos insultados em 2011, e Virgitti nega. Na crítica do Guardian, Jess Cartner-Morley escreveu que a indústria “não sai bem” do filme. Para ela, a pressa em deixar o episódio para trás combina mal com um setor que diz valorizar a diversidade.

Imagem da campanha da coleção Re{form} Zara by John Galliano. Créditos: Zara.
A aposta da Zara
John Galliano deixou a Margiela em dezembro de 2024 e se recolheu à sua casa de campo na Picardia, ao norte de Paris. A volta, quando veio, passou por um velho aliado. Em 2022, ele e o companheiro, Alexis Roche, viajaram a La Coruña, na Espanha, cidade-sede da Inditex, para ver uma exposição de Steven Meisel. Era o mesmo fotógrafo cujo ensaio para a Vogue americana ajudou a viabilizar o desfile que o salvou em 1994. Lá, o estilista britânico conheceu Marta Ortega Pérez, presidente do conselho da Inditex e responsável pelas colaborações da Zara. Ela propôs uma parceria. Ainda na Margiela, ele disse que não.
Os dois continuaram se encontrando para almoçar. Num desses encontros, já fora da Margiela, Galliano apresentou a ideia que viraria a Re{form}: em vez de criar do zero, retrabalhar peças de coleções passadas da Zara que estavam paradas no estoque, cortando, invertendo e remontando cada uma delas. “Ela disse: ‘Sim, vamos fazer’”, contou à Vogue. O projeto começou em sigilo em janeiro de 2026, em um ateliê em Boulogne-Billancourt, nos arredores de Paris, e foi anunciado em 17 de março.
O anúncio pegou a moda de surpresa. De um lado, estava um dos nomes mais celebrados da alta-costura, o ofício mais artesanal e restrito do setor. Do outro, a Zara, principal marca da Inditex, a maior varejista de moda do mundo, que tentava se posicionar em um patamar mais sofisticado. A Vogue resumiu as reações em três palavras: “ira, incredulidade, intriga”. As duas partes apresentaram a parceria como uma forma de democratizar o acesso ao estilista. Para Ortega Pérez, era “uma honra levar a magia de John a um público mais amplo pela primeira vez”. Em entrevista, o designer celebrou um alcance “muito maior do que já tive”. Na imprensa especializada, permaneceu a dúvida sobre como o público receberia a coleção.
Quando a coleção ficou pronta, as fotos ficaram com Meisel. Trinta e dois anos depois do ensaio de 1994, o fotógrafo que ajudou a sustentar o início da carreira de Galliano assinava as imagens da sua volta, depois de quase dois anos de silêncio.
A homenagem
Em 31 de julho, pouco mais de quatro meses após o anúncio da parceria com a Zara, o Metropolitan Museum de Nova York apresentou “John Galliano: Horizons”. A exposição do Costume Institute, o departamento de moda do museu, ficaria em cartaz por nove meses a partir do Met Gala de maio de 2027 e percorreria a carreira do estilista até o desfile de 2024 da Margiela. Seria apenas a terceira mostra individual de um designer vivo na história do museu. O curador Andrew Bolton antecipou que o passado não ficaria de fora: a exposição abordaria as falas antissemitas e racistas, a demissão da Dior, a condenação na França e o tratamento do vício.
Antes do anúncio, o ex-diretor criativo da Dior e da Margiela já havia se reunido com rabinos influentes de Nova York, como Rick Jacobs, presidente da Union for Reform Judaism, e Joshua Davidson, da sinagoga Emanu-El. Os dois disseram estar convencidos do arrependimento dele, mas nenhum endossou a homenagem. Jonathan Greenblatt, diretor-executivo da ADL, lembrou que a entidade “há muito tempo aceitou” as desculpas do estilista, mas disse entender quem questionava a escolha diante da “enorme alta do antissemitismo nos últimos anos”.
A crítica pública começou em 6 de agosto, com um artigo de opinião no New York Times assinado por Dana Thomas, jornalista e biógrafa de Galliano, que classificou a escolha do museu como um erro grave. Nas semanas seguintes, a reação chegou aos doadores e à política. Alice Tisch, doadora de destaque do Met, chamou a mostra de “whitewash”, uma tentativa de limpar a imagem do estilista, segundo o New York Times. O galerista Arne Glimcher, fundador da Pace Gallery, uma das galerias de arte mais influentes de Nova York, também se opôs. Julie Menin, presidente da Câmara Municipal de Nova York, disse que a decisão era profundamente dolorosa para os judeus da cidade. Micah Lasher, deputado estadual pelo Upper West Side e candidato democrata à cadeira de Jerry Nadler no Congresso americano, foi direto ao New York Times: “Isso não é uma questão de liberdade de expressão. É uma questão de bom senso, e me espanta que alguém não tenha percebido que era uma péssima ideia”. Em 30 de agosto, Sam Raskin, porta-voz do prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, declarou que “o uso repetido de linguagem antissemita por John Galliano é vil” e lembrou que a independência do museu “não significa estar imune a críticas”.
No dia seguinte, o britânico publicou a nota na qual desistia da exposição. Além de se declarar responsável pela dor causada, escreveu que se encontra “profundamente arrependido” e que não queria que o debate em torno dele “desviasse a atenção do notável trabalho do Costume Institute”. O museu confirmou o cancelamento e prometeu anunciar outra exposição. “Acredito profundamente na responsabilidade dos museus de examinar histórias difíceis com rigor, franqueza e cuidado. Também reconheço a dor e a preocupação que esta exposição causou”, afirmou Bolton. Anna Wintour é conselheira do museu, principal força por trás do Met Gala e defensora de Galliano há décadas. Para ela, o recuo foi um revés. Ainda assim, declarou “apoio total” ao estilista: “A decisão de John é muito corajosa e uma medida do homem que ele é”. Greenblatt, no mesmo dia, endureceu o tom: “Com o antissemitismo em níveis de crise, a homenagem do Met a John Galliano neste momento foi equivocada. O momento importa”.
O Le Monde e a Jewish Telegraphic Agency (JTA), agência de notícias especializada na comunidade judaica, destacaram que foi o estilista quem desistiu diante da reação. A Vogue e o Hollywood Reporter descreveram uma decisão conjunta do estilista e do museu. O site americano Fashionista, especializado no mercado de moda, escreveu que foi o Met Gala que cancelou os planos devido à forte repercussão. Porém, quem desistiu primeiro ficou em aberto.

John Galliano chegando a uma delegacia de polícia em Paris, em 28 de fevereiro de 2011, acompanhado do advogado Stephane Zerbib. Créditos: Gonzalo Fuentes [Reuters].
Em 1º de outubro, um mês após o recuo do Met Gala, a Re{form} chegou ao site e às lojas da Zara. Segundo o Hollywood Reporter, um vestido de cetim e renda da coleção, vendido por US$ 179, esgotou rapidamente em algumas cores. Na edição de novembro, a Vogue dedicou à coleção uma longa reportagem, na qual chama Galliano de “o talento definidor do nosso tempo” na alta-costura. O escândalo aparece em duas passagens. A primeira menciona, de passagem, “vários surtos antissemitas e anti-asiáticos no fim de 2010 e em 2011”. A segunda trata da demissão da Dior como o “momento mais baixo” do estilista, consequência de surtos “alimentados, segundo ele, pelo vício em drogas e álcool”, e acrescenta, entre parênteses, que o designer está sóbrio há 15 anos.
Em janeiro de 2026, um vestido de alta-costura criado por Galliano para a Dior estabeleceu um recorde em leilão para um vestido da casa assinado por ele: 663 mil euros, com taxas. Na Zara, a peça mais barata custa US$ 29,90. Das araras das maisons ao fast fashion, passando pelas peças de colecionador, o nome do designer britânico nas etiquetas continua gerando desejo, apesar de suas declarações antissemitas e racistas.
O nome no rótulo completa o retrato. A coleção se chama “Re{form} Zara Authored by the Couturier John Galliano” porque a marca John Galliano ainda pertence à LVMH, dona da Dior. Quinze anos depois, o estilista não pode usar o próprio nome, mas o mercado continua comprando o que ele assina.
É aí que mora a tensão que acompanha o ex-diretor criativo da Dior desde 2011. No campo ético, as perguntas permanecem em aberto. Ele diz não se lembrar do que disse naquelas noites; Philippe Virgitti nega ter recebido um pedido de desculpas, e até quem um dia atestou seu arrependimento passou a pedir cautela, porque “o momento importa”. No campo do mercado, a conta é mais simples: Galliano vende, da alta-costura ao varejo, e tem a seu lado quem decide o que a moda celebra. Para uma parte da indústria, quinze anos de sobriedade, desculpas públicas e encontros com rabinos bastam. Para outra, a questão não é se ele mudou, mas sim o que significa celebrá-lo.
Em 2026, a pergunta sobre quanto o talento compra recebeu uma resposta em duas partes. Compra uma parceria de dois anos com a Zara, a defesa de Anna Wintour e um lugar nas lojas de dezenas de países. Ainda não compra a consagração de um museu. Entre uma coisa e outra, o museu optou por esperar e o varejo, por vender. John Galliano continua sendo aplaudido; a diferença é que, desta vez, o aplauso veio das araras, e não das paredes de um museu.


