VOCÊ ESTÁ LENDO >> O Diabo Veste Prada 2 entende que o tempo é seu verdadeiro protagonista
POR Mika Mattos | 29 de abril

A sequência mostra a transformação da mídia, das relações de poder e da construção de relevância ao longo dos anos

Poucos filmes conseguem permanecer relevantes anos depois da estreia. Lançado em 2006, O Diabo Veste Prada é um desses casos. Ao longo de duas décadas, o longa continuou sendo lembrado e revisitado por diferentes gerações e se tornou uma referência da cultura pop que ultrapassou o universo da moda. Sua continuação chega em um contexto completamente diferente e convida o público a observar como os personagens, o mercado editorial e as relações de poder se transformaram ao longo do tempo.

Quando o primeiro filme estreou, o universo da moda seguia uma estrutura com hierarquias bem definidas e poucos centros de decisão. As revistas impressas eram o coração da indústria, e a editora-chefe ocupava a posição máxima de autoridade. Miranda Priestly representava esse modelo de poder. E todos queriam ser como ela. Mas esse mundo ficou para trás. Revistas como a Runway, com suas edições especiais e editoriais que levavam meses para ganhar forma, pertenciam a um cenário em que o tempo ainda era um aliado da construção. Eram resultado de um longo processo, envolvendo equipes inteiras, viagens, decisões cuidadosas e um calendário que organizava o ritmo da indústria.

Foto: Divulgação/20th Century Studios | “O Diabo Veste Prada 2”

Com o passar dos anos, esse cenário deu lugar a um ambiente muito mais acelerado, no qual a informação circula sem pausa e em grande volume. As redes sociais reorganizaram a forma como a moda chega até as pessoas, e a lógica da mediação perdeu força diante desse novo fluxo. E é esse deslocamento de poder que sustenta a tensão dramática do longa.

Se antes Miranda ocupava o centro da influência, agora ela precisa dividir espaço em um mercado onde autoridade, visibilidade e relevância circulam entre marcas, plataformas digitais e figuras públicas. O controle deixa de estar concentrado em uma única pessoa e passa a ser constantemente disputado. Emily Charlton, sua ex-assistente, simboliza bem essa mudança. Ela reaparece do outro lado da moeda, agora à frente de uma marca de luxo e responsável pelas verbas publicitárias das quais a Runway depende para sobreviver.

Quem antes respondia às ordens de Miranda agora tem poder para influenciar os rumos da revista, mostrando como as antigas hierarquias deram lugar a relações muito mais competitivas. O retorno de Andy também ajuda a mostrar como esse universo mudou. Ela volta à história como editora de matérias especiais da Runway, contratada após a repercussão de um discurso seu sobre a relevância do jornalismo, em meio à crise de credibilidade enfrentada por Miranda e pela revista.

Priestly sempre foi apresentada como uma figura quase intocável, para quem fracasso, dúvidas ou perda de prestígio pareciam não existir. Na continuação, essa imagem dá lugar a uma figura mais vulnerável. Uma das falas do filme sintetiza essa mudança ao afirmar que os seres humanos são, ao mesmo tempo, magníficos e imperfeitos. A frase resume a forma como a narrativa passa a enxergar sua personagem mais poderosa, revelando uma dimensão humana que antes permanecia em segundo plano.

Foto: Divulgação/20th Century Studios | “O Diabo Veste Prada 2”

A Runway, antes símbolo de um modelo de mídia aparentemente sólido, passa a enfrentar pressões de todos os lados. A revista vê sua credibilidade abalada após a repercussão negativa de uma reportagem, tornando-se alvo de críticas e colocando em xeque a autoridade que durante anos sustentou sua influência. Seria fácil assistir à TDWP como um exercício de nostalgia, um retorno afetivo a personagens amados, uma visita saudosa a uma estética que a moda dos anos 2000 imortalizou. Parte disso está lá, inevitavelmente. Mas reduzi-lo a isso, porém, seria perder o que há de mais interessante.

A história propõe uma reflexão sobre adaptação e sobre como pessoas, marcas e modelos de negócio respondem quando o contexto ao redor muda radicalmente. Algumas conseguem acompanhar essas transformações, enquanto outras resistem a elas e precisam lidar com as consequências de suas escolhas ao longo do tempo. Nigel, por exemplo, depois de anos dedicados à Runway, finalmente conquista reconhecimento pelo trabalho que sempre realizou nos bastidores. Mais do que mostrar quem venceu ou perdeu com essas mudanças, o filme observa como pessoas e estruturas construídas em outro momento precisam se reposicionar em uma realidade completamente diferente. A moda mudou, a mídia mudou e as relações que sustentavam aquele universo também.

Foto: Divulgação/20th Century Studios | “O Diabo Veste Prada 2”

Sair do cinema depois de assistir O Diabo Veste Prada 2 trouxe uma sensação de reencontro. A continuação preserva o que tornou o primeiro filme marcante, mas também reconhece que duas décadas transformaram personagens, relações e o próprio universo em que eles circulam. Há emoção em revisitar essas figuras com tudo que carregam, mas também em perceber que o tempo passou e que nós também mudamos junto com ele.

Talvez essa seja a principal reflexão. A permanência nunca depende apenas de manter tudo como antes, mas da capacidade de encontrar novos caminhos diante das mudanças. Algumas histórias continuam encontrando espaço justamente porque conseguem olhar para o passado sem ignorar o presente. E talvez seja por isso que, mesmo vinte anos depois, em um cenário tão diferente daquele apresentado no primeiro filme, ainda exista algo a dizer.



ESCRITO POR Mika Mattos
Jornalista e PR, pós-graduanda em Jornalismo e Comunicação de Moda e Beleza pela ESPM. Cria narrativas estratégicas para fortalecer marcas e construir conexões autênticas e relevantes com o público.

Jornalista e PR, pós-graduanda em Jornalismo e Comunicação de Moda e Beleza pela ESPM. Cria narrativas estratégicas para fortalecer marcas e construir conexões autênticas e relevantes com o público.

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