VOCÊ ESTÁ LENDO >> Moda e uma aproximação lógica, por Larissa Henrici
POR Larissa Henrici | 3 de novembro

Sei que às vezes uso uma moda repetida. Mas qual é a moda que nunca foi vista?

Eu queria dizer algumas coisas sobre a moda, queria dizer, sem o barulho que faz alarde na minha mente só de usar a palavra “moda”…é quase impossível. Este texto está rolando no feed de alguém, e quem sabe alguma coisa chame a atenção e conquiste 1 minuto de atenção – ou um segundo ou um like, quem sabe, só pela frase de efeito na chamada. É assim que as coisas funcionam hoje, não?

Logo que começo a digitar, me vem à mente uma centena de influenciadores, jornalistas, pesquisadores; que entre trends, teorias e polêmicas, falariam qualquer coisa sobre moda, melhor que eu. Acho que no caos dos excessos, muitas vezes eu me privo de falar, de ser mais uma voz e até por poupar as pessoas da repetição. E, veja lá, falar de moda e ser repetitiva é quase que um pressuposto, da mesma maneira o barulho e as redes sociais ( que quero interromper com o sussurro de uma reflexão).

 

A moda é um fenômeno social que expressa nossos desejos e anseios em forma de consumo.

A moda é repetitiva, elementar, meus caros, elementar! E é dessa desculpa que uso para escrever, é desse fenômeno que vamos falar. Eu fico atônita quando alguém, diante de uma imagem de moda, diz, quase como Sherlock Holmes:  “Gente, isso já existia”, “Aí, mas isso já vi anos atrás”, ou, então, “nossa, tô cansado da moda, parece tudo igual”.  Esse tipo de pessoa que vê a moda como se fosse álbum de figurinha da copa, abrindo o pacote num desejo infantil de achar uma novidade. Essa moda só como entretenimento realmente irá cansar. Ou viciar na busca por doses cada vez mais fortes de excentricidades.

Outro tipo de pessoa, ou até o mesmo tipo, só que com menos tempo de exposição à moda, ainda está vendo tudo com frescor e se deslumbrando com o novo  – insiraumpalavraeminglês+CORE – da vez, e chamam de “ wierd girl aesthetic”, o “man repeller” da minha época.  Vamos falar para essas pessoas, que veem o fogo e as cinzas de modismo em vez da fênix, o que é a moda. Topa essa jornada?

A MODA NÃO EXISTE

Indo direto ao ponto: a moda em si mesma nem existe né!? Como a fênix, é um imaginário, ela é um holograma que projeta imagem e que a gente acha que pode tocar quando compra um produto, e o produto não é a moda, o produto não é a tendência como diz  a professora e autora do livro O Cérebro e a Moda, Nathália Anjos, entre outros autores da área. A moda é expressão, uma representação de um grupo de pessoas em um período de tempo, que revela ética, estética, cultura, desejos, devaneios, rebeldias, prefiguração . Assim como uma foto de alguém não é a pessoa, é quase uma miragem! é nessa complexidade e rumos paradoxais que a moda se constitui e se forma – chamo a todos para interagir nesta reflexão. Porque a moda é isso tudo junto e misturado, um fonêmeno social que se manifesta aos moldes de uma época e de uma sociedade.

 

Cultura de Moda: compramos significados e não produtos.

 

COMO 1 E 1 SÃO 2 OU 11

Em suma, caros leitores, a moda é resultado de uma equação, e por vezes  nos perdemos vendo o número final do que os fatores que a geraram: pessoas e como elas vivem. Pode ser estranho pensar como a moda é conectada com números. Entretanto, a matemática é seu habitat natural tanto quanto um atêlie.

Na estatística, a moda é uma forma de medida, representa o valor mais frequente de um conjunto de dados. O sistema binário dos computadores foi inspirado pelo tear de jacquard. E com matemática e fios os povos andinos faziam contabilidade, como me explicou em uma conversa tempos atrás o estudioso dos Andes, o designer Adrián Llave Inca. Não ouso dizer que a moda é uma ciência exata, mas tem lá suas previsibilidades, humanos são mais previsíveis do que imaginamos, por consequência a moda.

A futurista Andrea Bisker compara com a cena de Matrix em que o protagonista Neo vê de fato o manto verde de códigos binários que constroem sua realidade. Algoritmos e a moda são a combinação tão básica quanto jeans e camiseta branca. E o que vem acontecendo hoje são mais possibilidades de análises e mais quantidade de dados. Nós, seres humaninhos, continuamos com necessidades e comportamentos tão primários como de muitos anos atrás.

Dos Hippies aos veganos, das patricinhas ao old money, do vaso de Duchamp ao saco de lixo da Balenciaga, somos compostos da mesma fórmula humana em cenários diferentes, ferramentas diferentes. A grosso modo, eu resumo o ciclo da moda com fatores importantes que influenciam o comportamento humano, que são a economia e a cultura. Bem assim: um multiplicado pelo outro, dividido por um grupo específico no tempo e espaço, e você terá o resultado, a moda. Portanto, desconfie sempre que achar que a moda está sempre igual e também quando achar que tudo é novidade, essa é a pista para não cometer equívocos. Tudo é cíclico, e é nisso que a energia da vida se impõe, é isso que mantêm sistemas inesgotáveis como a moda, o mimetismo desta renovação.  Andamos em círculos como humanidade, passamos e tropeçamos no mesmo caminho e problemas, em cenários diferentes. E esse é o gancho para o próximo texto…



ESCRITO POR Larissa Henrici
É docente no Senac, graduada em Têxtil e Moda na USP e mestre na mesma instituição com pesquisa sobre Metodologia de Projeto de Design de Moda em economia solidária.

É docente no Senac, graduada em Têxtil e Moda na USP e mestre na mesma instituição com pesquisa sobre Metodologia de Projeto de Design de Moda em economia solidária.

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