Por Bárbara Lis, Carolina Johansen, Maria Fernanda Baby
Você já pensou nos momentos do passado que lhe conduziram ao que você é hoje? Ao ser indagada sobre sua história antes de se tornar a profissional que é hoje, Natacha Cortêz Corrêa relembra que “toda a minha origem é bastante simples, mas sempre tive uma inquietação, mesmo quando era criança, de pedir coisas pros meus pais que não faziam muito parte dessa simplicidade.”

Natacha com a mãe, o irmão e o pai. Reprodução: Instagram – @natachacortez
Seus pais, comerciantes de sapatos em Maringá (PR), vieram de famílias com poucos recursos financeiros, mas apoiaram os interesses e as curiosidades da jovem: “Quando era muito pequena, eles me deixaram fazer um curso de pintura em pano de prato. Anos depois, um curso de desenho”, recorda. Essa inquietude também a levou a pedir a eles que assinassem as revistas Capricho e Veja, em meio a outros títulos que preenchiam seu lar, por meio de sua mãe, Nadir Cortêz, como Cláudia e Elle.
Aos 15 anos, quando chega aquela idade de pensar sobre o vestibular, a jornalista não tinha uma ideia definida de qual curso escolheria: “só pensava em uma profissão que me colocasse morando em São Paulo, porque não teria faculdade disso aqui”, explica ao compartilhar a justificativa que tinha para convencer a família. Mesmo com relutância, seu pai, Manuel Corrêa Filho, apoiou sua vontade, mas fez uma ressalva: pediu que sua filha fizesse ao menos um ano do curso no Paraná, além de passar no vestibular da Universidade Estadual de Maringá (UEM).
Natacha conseguiu atender às exigências e, ao término do curso, obteve seu diploma em Design de Moda. A experiência também contribuiu para o processo de autodescoberta e de encontros que a acompanham até hoje: “No primeiro dia, entrei naquela van e tinha uma menina lá no fundo, que é minha amiga até hoje, Luísa. Lembro exatamente da roupa que ela estava vestindo, do cabelo, de tudo. É fato que quando encontrei essa turma, era como se já soubesse há muito tempo que gostava de tudo aquilo e que tinha mesmo encontrado o meu caminho.”
Encontrar seu caminho na moda, porém, não significou permanecer apenas na criação. Foi o repertório construído nesse universo que abriu para Natacha uma segunda possibilidade profissional: o jornalismo. Ela não precisou abandonar uma área para ingressar outra; foi por meio dela que conseguiu sua vaga inicial como repórter.
Depois de uma passagem pela assessoria de imprensa, chegou à TPM com o repertório de quem havia estudado Moda e com a missão de escrever sobre estilo “daquele jeito da TPM”. Neste novo desafio, porém, a Moda deixou de ser assunto primordial para ocupar o lugar de lente pela qual a pesquisadora observava o mundo ao seu redor, seus personagens e, então, sua própria escrita.
Entre reportagens, entrevistas e perfis, Natacha passou a aproximar a roupa do comportamento e das transformações sociais que atravessavam suas pautas. Ela reconhece que ainda recorre ao que aprendeu sobre tendências, comunidades e perfis de consumo para compreender as audiências – uma habilidade que ganharia novas aplicações à medida que sua carreira avançasse: “O que tenho visto no trabalho que faço hoje, que é um trabalho por projeto, é um uso muito forte das minhas skills de análise de tendência e de comunidade de consumo porque vejo que a comunicação, hoje, especialmente quando ela se dá em rede social, atende muito ao que estudei na graduação.”
E as perguntas realmente se multiplicaram. Pouco depois do início de sua trajetória na publicação voltada ao público feminino da Revista Trip, Natacha já investigava os obstáculos enfrentados por mulheres brasileiras no acesso ao aborto previsto em lei. Em 2014, ao lado das jornalistas Anna Beatriz Anjos e Gabriela Sá Pessoa, assinou Dor em dobro, uma investigação sobre as barreiras burocráticas, políticas e morais encontradas na rede pública de saúde – reportagem que receberia, no ano seguinte, o Prêmio Roche de Jornalismo em Saúde.
Vieram, também, temas como sexualidade, autonomia financeira, violência de gênero e maternidade. Natacha entrevistou mulheres em posições de poder e acompanhou a política sem, por isso, fechar os olhos para a Moda e a Beleza. Estes temas em discussão, embora, a um olhar desavisado, parecessem não ter afinidades diretas, encontram um ponto de contato na maneira como ela entende a pauta. A jornalista diz defender histórias que funcionem como “retratos sociais”, se algo está acontecendo no mundo, “tem temperatura e relevância, tem que ser contado”. Em sua trajetória, existe um fio que aproxima as pontas de uma semana de moda e de uma reportagem sobre direitos reprodutivos: a curiosidade pelo que cada assunto diz sobre quem viveu aquele tempo.
Em 2022, Natacha assume a posição de editora-executiva da Marie Claire Brasil e, posteriormente, em 2024, de editora-chefe. Ao assumir o cargo, declara que a jornalista que era não desapareceu: “É meio que camadas”, explica. A seu ver, a profissional que passou anos apurando e escrevendo não desaparece quando assume a responsabilidade por uma redação, mas se soma às novas experiências.

Dedicatória da jornalista Míriam Leitão à Natacha Cortêz, no livro “Saga brasileira”, lê-se: Para Natacha, que sabe entrevistar tão bem, um pouco das entrevistas que fiz. Reprodução: Instagram @natachacortez.
É nesse ponto que as vivências acumuladas em Moda, Comportamento e Política ganham outro significado. Ela passa a decidir não apenas como contar uma história, mas também quais histórias merecem chegar à leitora e de que maneira devem ser contadas. Para Natacha, mesmo uma publicação feminista precisa preservar o rigor jornalístico. Em pautas de violência de gênero, por exemplo, o posicionamento do veículo não elimina a necessidade de ouvir todos os envolvidos. O mesmo princípio, segundo ela, vale para a moda e a beleza: o jornalismo é a estrutura que permite à redação trabalhar com esses temas sem perder sua responsabilidade.
Muito antes de redigir textos, Natacha já era uma leitora. Hoje, a relação com os livros aparece de uma maneira diferente daquela que tinha a menina que, em Maringá, pedia revistas à mãe. Ela não fala apenas sobre o que lê, mas sobre a maneira como certas obras permanecem próximas dela, tanto pessoalmente quanto na forma como pensa a própria escrita. Joan Didion é um desses casos.
Escritora e jornalista americana, Joan publicou textos em revistas de lifestyle, escreveu ensaios e romances e se tornou uma referência para Natacha justamente por transitar nesse território entre jornalismo e literatura. “É uma jornalista desse texto mais jornalismo literário”, explica. Para ela, a referência está nessa possibilidade de fazer um jornalismo que não se limita ao hard news ou ao factual, mas encontra espaço para observar personagens, construir narrativas e permanecer próximo da literatura.
Fizemos o clássico questionamento: “qual pergunta você gostaria que tivessem te feito e nunca foi feita?”. Como uma aquariana nata, nos entrega uma resposta que provoca mais reflexões do que uma resposta redondinha: “Putz, é muito difícil. Como pessoa, coisas muito freudianas (risos), mas como jornalista não sei se é uma pergunta, mas talvez uma provocação. Sempre fui muito entusiasta das tecnologias em geral, de novos projetos e de desenhar coisas novas”.

Natacha (a esquerda) e a ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania Macaé Evaristo no 11° Power Trip Summit 2025, evento de lideranças femininas que Natacha foi uma das responsáveis pela idealização e execução. Reprodução: Instagram @natachacortez.
Complementa, em seguida: “Durante muito tempo, a Natacha, jornalista mais jovem, ficou insistindo em um olhar mais moderno no sentido de estrutura jornalística. Por exemplo, precisei insistir muito para fazermos, na Marie Claire, uma virada para video first nas redes sociais. Precisei insistir para cuidarmos da newsletter com o mesmo rigor que outros produtos e fazermos uma estratégia de peso. Sinto, até hoje, que existe uma resistência.”
Em 2015, em uma entrevista concedida ao veículo Oppa Design, Natacha, na época com 28 anos, afirma que “sempre quis ser muitas coisas”. 11 anos depois, é possível perceber que esse desejo se concretizou e ainda faz parte do seu jeito investigativo de ser.

