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O reino encantado (e digital) de Dior

Ivan Reis |08.jul.20

Adaptando-se à pandemia, Christian Dior abriu na última segunda-feira (06/07), em Paris, a temporada de desfiles de Alta-costura para o outono-inverno 2020-21 com uma apresentação digital escapista, repleta de seres mitológicos e misteriosos. O filme Le Myhte Dior, dirigido pelo italiano Matteo Garrone, homenageou um projeto marcante na história da maison francesa.

Dior vestiu seres imaginários para celebrar a conexão com a natureza e a essência do gesto criador como alma da Alta-costura. Créditos: reprodução www.vogue.pt

O Théâtre de la Mode foi uma exposição itinerante de Dior com modelos em miniatura que viajou por Paris, Londres e Estados Unidos no pós-guerra de 1945 com o objetivo de difundir as suas criações e manter seu fascínio no mercado. Hoje, a marca resgatou a iniciativa para vestir fadas, ninfas e seres imaginários em cenários de encher os olhos.

“Imagens surrealistas conseguem tornar visível o invisível. Estou interessada no mistério e na magia, que também são uma maneira de exorcizar a incerteza sobre o futuro”, disse Maria Grazia Chiuri, diretora criativa da marca. Nada mais atual do que estamos vivendo hoje em razão da pandemia do novo Coronavírus, razão por que a semana de moda ocorre digitalmente.

Homenageando o Théâtre de la Mode, a maison retratou o cuidado nos detalhes de criação de miniaturas em ¼ de seu tamanho original. Créditos: Christian Dior

Toda a magia do fashion film funciona como uma dose de escapismo à realidade em que vivemos. É na criação de formas e cenários que a moda encontra uma maneira de suspender o presente e mergulhar em seu próprio mundo. Como estratégia de sobrevivência humana frente ao que vivemos, este movimento ganha contornos mais problemáticos se olharmos para questões sociais profundas que vêm à tona com a pandemia. É ingênuo, e ao mesmo tempo estimulante e desejado, idealizar um ambiente de fantasia nos dias de hoje. No mínimo, um delírio que tenta nos afastar da realidade.

Dobras de um sonho

Le Mythe Dior inicia com a atmosfera do ateliê da Avenida Montaigne, número 30, em Paris. A delicada trilha sonora instrumental envolve um enredo com paisagens naturais de florestas e rios onde dois mensageiros transportam uma caixa com miniaturas de vestidos. Apresentando as criações às personagens, uma viagem onírica de histórias e mitologia se desenrola.

É fato que o surrealismo nas proporções de cortes, cores e tecidos é presente nas criações de Dior. O sonho idealizado neste ambiente mágico é traduzido em peças de tecidos fluídos com nervuras, aplicações de bordados, formas amplas com cintura marcada e amarrações ao corpo. A seda plissada e peças com volume exagerado também são notadas em algumas das 37 silhuetas artesanais na sua construção. Produzidas à mão, dobras de tecido celebram a beleza do gesto criativo como essência da alta-costura.

O lookbook também participa do toque surrealista pelos cenários com imagens distorcidas de objetos, palavras e formas humanas. A seda plissada, aplicações com bordados e cintura marcada são característicos da marca. Créditos: Christian Dior

Inegável é reconhecer a criatividade de posicionamento da marca em um período conturbado da história mundial. Se as imagens bem produzidas se destacam, as peças ainda se apresentam da mesma forma. O sonho de Dior foi inovador pela produção de efeitos especiais, trilha sonora e fotografia. Mesmo transformada pela tecnologia, a tradição ainda manteve sua essência.

A atmosfera lúdica e de forte apelo imaginativo – associada ao primor e à complexidade de construção das peças – faz do mundo de Chiuri um possível refúgio para amenizar as incertezas sobre o futuro. A saída de emergência do presente.

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