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Jornalismo de moda x coronavírus: sensibilidade com o real ou alienação social?

O coronavírus, por mais que alguns insistam em ignorá-lo, existe, está matando milhares de pessoas no mundo e gerando um caos nunca vivido em nenhum momento da história. Junto com este cenário, muitas revistas de moda se lançaram nos últimos dois meses tendo a mesma realidade. Todas estão sendo produzidas diante dos mesmos problemas que todo o mundo está passando: isolamento social, mortes, desemprego, insegurança e crise econômica.

Capa da Vogue Portugal dá o start na cobertura do jornalismo de moda em tempos do coronavírus

Assim como contra fatos não há argumentos, com a semiótica e com a análise do discurso não há falsas interpretações. A mensagem que se constrói por um veículo editorial é aquela que se interpreta pelo todo diante do que se vive. Afinal, jornalismo de moda, embora seja setorizado, não vive às margens da sociedade, e é coisa séria.

A prática é a mesma para toda e qualquer editoria: apuração de fatos, compromisso com a informação, seriedade profissional, ética e respeito para com a sociedade e senso crítico diante de qualquer pauta. Porque, afinal, ainda é e deve ser jornalismo. Entretanto, o caso coronavírus foi retratado sob ótica distinta pelas revistas de moda. Umas, levando a sério a prática jornalista. Outras, considerando a revista apenas um meio de ganhar algumas cifras considerando a celebridade que se tem na capa.

VOGUE ITÁLIA: A CORAGEM DE PARAR AS MÁQUINAS
Sem desculpas, sem medo e com muita ousadia e criatividade, a equipe Vogue Itália assumiu a liderança e a provocação da importância das publicações de moda serem sensíveis à realidade que se vive no mundo todo. Mesmo com a edição de abril produzida e fotografada, o diretora de redação Emanuele Farneti colocou o holofote e respeito no que precisava: trouxe uma capa toda em branco simbolizando uma homenagem aos profissionais de saúde; um desejo de liberdade; e de um novo começo, de um novo tempo. Fotógrafos e ilustradores foram elencados para o trabalho em sistema de lockdown e mostrar entre uma página e outra a realidade de uma Itália devastada por mortes.  A Vogue Itália fez ali uma necessária pausa de máquinas para que o sentimento e respeito com o real pudesse ser exposto e marcado na história da moda.

Homenagem aos que estão no fronte de batalha: Vogue Itália assume a decisão sensível de trazer uma capa em branco simbolizando os profissionais da área da saúde.

VOGUE PORTUGAL: O AMOR EM TEMPOS DE PANDEMIA
Em tempos de medo e confinamento, o que se mais deseja é estar perto de quem se ama e se sentir seguro. Foi nesse mood que a Vogue Portugal, uma das primeiras a se posicionar criativamente no mercado editorial frente ao mundo com coronavírus.  A diretora da revista, Sofia Lucas, em sua carta de editora, critica o medo cego causado pela mistura de informações úteis com desinformações alarmistas. Segundo ela, o pânico que se alastra possui mais potencial de nos privar da liberdade que a própria pandemia em si. Ali, naquela edição que surge numa Europa caótica dentro do silêncio e privação de cada cidadão, a diretora propõe pensar sobre o amor em tempos de coronavírus como perseverança pela liberdade. De acordo com  Sofia, esse é sim o momento de sentirmos medo mas não de sentir o pânico que nos paralisa diante de toda a situação, pois o medo se trata de uma reação enquanto a coragem é o ato de decisão.

Amor em tempos de pandemia: capa da Vogue Portugal evoca o desejo por amar e estar perto.


A CELEBRAÇÃO DO VAZIO PELA VOGUE BRASIL
Em contrapartida aos posicionamentos da Vogue Itália e Portugal, a Vogue Brasil divulgou, em seu Instagram, que manteria o compromisso de informar, entreter e inspirar seus leitores de maneira otimista ‘’mas não alienada’’ durante o período da pandemia. Chegou abril. E o que se viu no lançamento da revista que comemora a sua edição de número 500 foi muito mais o desejo pela festa do que a sensibilidade frente ao que se vivia do lado de fora, nas casas e hospitais brasileiros. Destaque para Ivete Sangalo, que aparece na capa com expressão séria e com uma máscara (não de proteção) de paetês. A celebração da vez é sem festas e sem sorrisos. Pois não devia haver celebração, de fato. E nem uma capa que traz paetês e uma tentativa frustrada de fazer a revista caber no momento atual do país.

Comemoração em tempos de pandemia: a cantora baiana Ivete Sangalo é capa da revista Vogue Brasil de abril, momento que o país enfrentava o segundo mês de isolamento social por conta do coronavírus

Mas a história e o enredo não pararam por aí. No mês de maio, na edição de 45 anos da Vogue Brasil, uma outra bola fora. Tanto na imagem quanto na manchete que vinha com ela: Gisele Bundchen com a mensagem de “O Novo Normal”.  A imagem que carrega todos os padrões do mundo “antigo”: mulher branca, magra, rica e da moda, vestindo uma grife internacional de luxo. A edição, com a ubermodel, colocou em xeque a sintonia da revista com o que se vive com o coronavírus no Brasil, mais uma vez e fez um séquito de leitores criticarem a visão e posicionamento da revista.

Quando a imagem não condiz com o título: Gisele Bündchen e o confronto moral sobre o novo normal pós-coronavírus


MARIE CLAIRE MÉXICO E OS NOVOS INFLUENCIADORES
Se por aqui a influenciadora Gabriela Pugliesi – que convida amigos para festa particular em plena quarentena e grita sem constrangimentos “Foda-se a Vida” em suas redes sociais-, é símbolo da decadência do que se representa influência, no México surge um olhar carinhoso e justo para aqueles que são realmente merecedores de likes, compartilhamentos e buzz no mundo não só digital.

Vogue México: a sensibilidade de trazer a imagem daqueles que merecem destaque em tempos de pandemia.

A revista Marie Claire mexicana trouxe em sua capa de maio uma capa ao estilo retrato de uma das profissionais que estão no fronte de trabalho médico contra o covid-19. O fotógrafo Alberto Giuliani foi o responsável por capturar as imagens de profissionais após longas jornadas de trabalho no Hospital San Salvatore, localizado na cidade italiana Pesaro. E, como uma forma de homenagear as mulheres que estão nessa luta, a edição faz o seu manifesto dizendo que “a resiliência do novo tempo tem rosto de mulher. E que as figuras ali retratadas naquela edição são as influenciadoras reais da atualidade”. Em tempos de coronavírus só se faz cego no segmento da moda quem não olha para o lado de fora da janela.

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