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Jornada nas Estrelas: a Moda e o Espaço Sideral

O início de uma nova fase na Era Espacial pelo lançamento da nave Dragon Crew no sábado (30/05), nos EUA, parece ter vindo em um momento oportuno. Seja pelo aquecimento global ou pelos preconceitos e intolerâncias que insistem em contaminar a humanidade, ficar no planeta Terra do século XXI tornou-se uma experiência sufocante. Alguns estão sendo, literalmente, asfixiados sobre o asfalto pela cor de suas peles e notícias como essa fazem com que o desejo de deixar esse mundo nunca tenha sido tão real.

É irônico que ambas as situações ocorreram no mesmo país, com apenas alguns quilômetros e dias de diferença. Enquanto uns são impulsionados a milhares de quilômetros em direção aos céus pela mais avançada tecnologia, outros são cruelmente pressionados contra o chão.

Alcançar o espaço sideral e expandir as limitações físicas do ser humano ainda é para poucos. Mas cada avanço da Era Espacial inspira naqueles que ficam na Terra sonhos de um futuro menos opressivo e que, algumas vezes, são traduzidos em peças para os nossos guarda-roupas. Há mais de cinco décadas, estilistas buscam materializar essa imaginação e incorporar a ela o espírito de seus tempos.

Confira 5 momentos em que a moda foi influenciada pela exploração do espaço:

1) Chanel Nº 10, 9, 8…

Foguete serviu como cenário para o desfile de outono 2017 da Chanel no Grand Palais, em Paris. Foto: Vogue.com

Em 2017, na apresentação de outono/inverno 2017 da marca, o então diretor-criativo Karl Lagerfeld (1935 – 2019) colocou no centro do Grand Palais, em Paris, um foguete que trazia os C’s entrelaçados. A coleção trouxe grandes quantidades de branco e prateado, que combinavam a estética clássica da maison com o ar futurista do tema espacial.

Ao final do desfile, as modelos se posicionaram em volta do foguete e, após uma contagem regressiva de 10 segundos, ele “decolou”, com direito a muita fumaça e a música “Rocket Man”, de Elton John. Moderno, grandioso e inusitado, esse é considerado um dos desfiles mais icônicos da história da Chanel.

2) Gangue Gucci Intergaláctica

Imagem da campanha ‘Gucci and Beyond’, de 2017, fazendo referência a série de televisão Star Trek. Crédito: Gucci.com

Com direção de Glen Luchford, a campanha de outono/inverno 2017 “Gucci and Beyond” uniu elementos da ficção científica para promover as criações de Alessandro Michele, diretor criativo da marca. Entre as referências, figuraram elementos da série Star Trek e dos filmes Star Wars, dando uma estética retrô aos aspectos futurísticos do vídeo, como alienígenas, robôs, naves espaciais e plataformas de teletransporte. Abaixo, conferimos o vídeo de divulgação da coleção:

3) Bonequinha do Futuro 

Cena do filme ‘Um Caminho Para Dois’, de 1967. Audrey Hepburn veste Paco Rabanne. Foto: © ALAMY em Vogue.co.uk

Com uma armação branca para seus óculos escuros quase alienígenas e um minivestido de discos de metal assinado por Paco Rabanne, nada representa melhor a união do glamour Hollywoodiano dos anos 60 ao Space Age na moda do que Audrey Hepburn em “Um Caminho Para Dois”, de 1967. No longa, Hepburn faz o papel de Jo Wallace, que parte em uma viagem para o sul da França junto com seu marido de 12 anos (interpretado por Albert Finney). Nada mais futurístico (e deliciosamente contraditório) do que uma atriz de Hollywood vestindo prateado na terra da alta-costura.

4) Pronto Para Vestir e Decolar 

Os ‘uniformes espaciais’ de Pierre Cardin, em 1967. Créditos: Yoshi Takata/DR.© Archives Pierre Cardin

Pierre Cardin foi um dos primeiros estilistas a abrir uma loja de ready-to-wear em Paris, o que resultou na sua expulsão do segmento da alta-costura pela Câmara Sindical. Igualmente obcecado pelo futurismo e pela corrida espacial, como seu contemporâneo Courrèges, Cardin apresentou a coleção Cosmocorps em 1964, na qual propôs roupas no estilo de uniformes, negando a tendência de marcar a silhueta das mulheres, com estampas geométricas e coloridas. Ainda que suas criações não sejam símbolos de glamour e sofisticação, Cardin se destaca por seu enorme sucesso comercial e sua previsão de um futuro para a moda.

5) Mundo da Lua 

As Meninas Lunares de Courrèges. Crédito: Bill Ray / Life Magazine / The LIFE Picture Collection / Getty Images

De certa forma, as mulheres chegaram à Lua antes dos homens. Mais precisamente, cinco anos antes! Em 1964, André Courrèges (1923 – 2016) deu origem ao “Moon Girl look”, introduzindo no guarda-roupa feminino as botas go-go brancas, que iam até os tornozelos, e combinando minissaias com acessórios cromados e padronagens geométricas. Considerado o precursor do estilo Space Age, Courrèges foi tão célebre em suas criações que recebeu um convite pessoal da NASA para visitar o Cabo Canaveral, na Flórida, onde se localiza a base de lançamentos de foguetes nos EUA – e de onde decolou o Dragon Crew em 30/05/2020.

Seja de forma glamurosa (como os discos de Audrey Hepburn), minimalista (como as botas de Courrèges) ou grandiosa (como o foguete de Lagerfeld), a possibilidade de conquista de novos mundos inspira o trabalho de estilistas há 50 anos. Enquanto as viagens espaciais ainda são jornadas para poucos, a moda que surge a partir delas permite materializar, viver e incorporar o sonho de um futuro melhor para quem habita a Terra. Um futuro, se não mais tecnológico, pelo menos mais humano.

E talvez seja exatamente esse o grande mérito das roupas futuristas: realçar o lado humano de quem as veste. Em um futuro utópico, porém (ou mesmo em uma galáxia muito, muito distante), não seriam necessárias botas prateadas ou acessórios cromados para que houvesse mais humanidade. Aí então, quem sabe, viver neste planeta não seria um exercício de fôlego e buscar novos mundos não seria uma urgência.


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