VOCÊ ESTÁ LENDO >> Marcas, revistas e influencers: a falta de senso crítico na pandemia
POR Andreia Meneguete | 13 de maio

Quando o universo fashion opta por criar narrativas alienadas e fora do contexto social

A regra é clara em tempos de pandemia: o confinamento social é necessário, temos que ficar em casa. Não por opção, mas por necessidade de sobrevivência e do pensar coletivo. O momento não é para mood de férias, de alta performance e produtividade, ou para comportamentos padrões de um mundo antes de todo o caos que em todos vivemos. É um momento de pausa, ajuda mútua e olhar sensível para o todo, que, definitivamente, não está sendo representado na amostra de uma bolha.

Tempo de calma e vagar: consumidor asiático na volta às ruas pós-confinamento (Foto: WGSN)

Com a falta dessa noção de realidade e conexão com o entorno é que marcas, revistas e influenciadores mostram-se apáticos e indiferentes com o que se vê do lado de fora da janela individual em tempos de Covid-19. Ignorando a seriedade de uma pandemia e de tudo que vem com ela – insegurança, crise econômica, desemprego, sucateamento do sistema de saúde, etc. , –  revistas fazem lives discutindo sobre “como será a ida aos restaurantes mais badalados, uma vez que têm fila de espera”; ou fazem interações em forma de games para lembrarem das viagens que os seguidores já fizeram e gostariam de dar check-in nos dias de hoje devido à saudade da vida de antigamente. Influenciadoras, por sua vez, agem como se houvesse diversos eventos sociais ao mostrarem os looks do dia patrocinados por marcas que, curiosamente, bem como suas embaixadoras, também não entenderam que não há ocasiões para trocas de roupas. É tempo de cuidar do cliente, do seguidor e do leitor como seres humanos passíveis de todas as fraquezas e vulnerabilidades que cercam a todos. Não é tempo de vender: é tempo de cuidar da comunidade que se criou em torno de quem se é.

 

Sem perceber ou estar atenta à seriedade do momento, estilista e influenciadora digital Lolita Hannud apoia-se na doença que devasta o mundo para criar categoria de looks do dia na quarentena. (Foto: Reprodução/Instagram)

A busca por engajamento e likes vazios mostra-se como o único direcional mais importante das empresas e influenciadores. Há um certo delay para entender que nunca foi tão urgente se desvencilhar das atitudes egocêntricas e compreender que o outro é mais que uma plateia de seguidores. O dever e a responsabilidade de informar e interagir de forma sensível e respeitosa com a audiência nunca foram tão necessários.  Mas não…  em terras de Instagram só há alienação social.

 

Hasthag sem senso crítico: influenciadora Arícia Silva também é uma das que ignoram a seriedade do problema que o mundo enfrenta.

O sentido da palavra blasè (bem usado no mundo da moda, vale dizer) nunca foi tão genuíno à sua essência: ato de ignorar, com indiferença e certa prepotência, o que acontece ao próprio redor. Com isso, temos personas famosas como Gabriela Pugliesi dando festas em plena quarentena. Outras, criando hastags de looks do dia com “Covid Looks”. Sem contar as marcas que se aproveitam de fetichização da mercadoria para vender máscaras por quase 200 reais, como foi o caso da Osklen. Esvazia-se o significado da função de uma máscara e colocam o teor da moda para vender produtos a preços duvidosos (para não dizer oportunistas!). Entretanto, nada de novo sob o sol – que hoje nasce com molduras de janelas e um sentimento de impotência. Mas é bem aquilo que a gente já sabia do velho mundo e que impera neste momento: enquanto uns choram, outros vendem lenço. E assim vamos seguindo à espera de empatia e senso crítico.

 



ESCRITO POR Andreia Meneguete
Founder @iam.inteligenciaemmoda, lecturer na @nafaap e @iedsp. Consultorias, treinamentos e palestras comunicação, varejo de moda e beleza.

Founder @iam.inteligenciaemmoda, lecturer na @nafaap e @iedsp. Consultorias, treinamentos e palestras comunicação, varejo de moda e beleza.

COMPARTILHAR

COMENTÁRIOS

LEIA MAIS EM Business

12 de maio

8 Perfis do Tiktok para Acompanhar e Aprender Sobre o Mercado de Moda

Muito além do look do dia e de dancinhas, o Tiktok permite a democratização e acessibilidade aos conteúdos sobre moda

por Ana Flávia Gimenez
5 de novembro

As estratégias da Jacquemus para se tornar “queridinha” no mercado de luxo

Entenda como a marca criada por Simon Jacquemus virou fenômeno e se tornou referência do conceito de novo luxo

por Rebeca Dias
17 de abril

As questões políticas e feministas por trás da História da Moda

Como as mulheres utilizaram seus trajes para demarcar seus espaços e provar que se vestir é um ato político.

por Júlia Vilaça
21 de novembro

Jonathan Anderson: o visionário diretor criativo por trás da grife espanhola Loewe

Conheça mais sobre o diretor criativo da Loewe, a marca de luxo mais queridinha do momento

por Carolina Duque

ÚLTIMAS POSTAGENS

Arraste para o lado
7 de setembro

Guy Bourdin, Kanye West e a objetificação da mulher através da moda

Separadas por setenta anos, duas cenas expõem a permanência da sexualização do corpo feminino

por Mika Mattos
7 de setembro

September Issue: saiba o porquê de ser o mês mais importante das revistas de moda

Confira os motivos pelos quais setembro impulsiona receita e transmite o espírito do tempo no universo fashion

por Mika Mattos
29 de abril

O Diabo Veste Prada 2 entende que o tempo é seu verdadeiro protagonista

A sequência mostra a transformação da mídia, das relações de poder e da construção de relevância ao longo dos anos

por Mika Mattos
13 de julho

Jornalismo de beleza: o que mudou na editoria que tanto ditava regras para as mulheres?

Editora de beleza da Glamour Isabella Marinelli reflete a nova fase deste segmento do jornalismo

por Isadora Vila Nova
13 de julho

5 reflexões sobre o Jornalismo de Beleza na Revista Glamour por Isabella Marinelli

Editora revela os pilares inegociáveis da revista Glamour quando o assunto é texto e imagem de beleza

por Clara Nilo
13 de julho

Raio X da Glamour Brasil: os pilares que fazem a revista se diferenciar no mercado

Renata Garcia, diretora de conteúdo da Glamour, explica como a revista se mantem relevante para seus leitores

por José Eduardo Chirito
13 de julho

Um passeio pela história e reinvenção da Glamour com Renata Garcia

A diretora de conteúdo relembra a trajetória do título e comenta a reformulação editorial para atender o novo leitor

por Gabriela Leonardi
13 de julho

Tecnologia a favor da transparência da produção: o que é blockchain na moda de luxo?

Compreenda como a nova tecnologia irá impactar a dinâmica de consumo do mercado da alta-costura

por Jefferson Alves