VOCÊ ESTÁ LENDO >> Carreira fashion: o que é preciso saber sobre jornalismo de moda
POR Ivan Reis | 22 de maio

Do impresso ao digital, a jornalista Andreia Meneguete analisa as transformações de um jornalismo que se reinventa no tempo 

Em um mundo cada vez mais acelerado, falar de roupas pode parecer irrelevante. Para alguns, a moda ainda é vista como futilidade, mas é o radar do mundo. Em mais de 10 anos no jornalismo feminino, Andreia Meneguete está há 3 anos à frente da IAM Inteligência em Moda, um hub de conhecimento, para quem pensa e faz moda, com mentorias, cursos, palestras e grupo de estudos.

“O jornalismo de moda não se trata apenas de informar o que será vestido nas próximas estações do ano, assistir a desfiles ou saber a cor tendência da nova estação. É muito mais do que isso, é sobre sociedade e suas manifestações”, sinaliza Andreia Meneguete

É a paixão pela moda de uma perspectiva crítica e pela experiência em grandes títulos – como Glamour, Vogue e Elle Brasil -, que a jornalista diz o que é preciso saber sobre jornalismo de moda que se reinventa em meio a tantas transformações sociais e tecnológicas.

Ligando o radar
É essencial saber o que acontece no mundo. Assim como em outras áreas do jornalismo, trazer informação relevante e de qualidade é fetiche de todo jornalista. Na moda, isso não é diferente. Portais como WWD, FFW, The Cut, BOF, The New York Times, além de títulos nacionais e internacionais, como jornais e revistas de moda, são fontes de inspiração para pautas, matérias, além de referências de imagem e texto. É como um moodboard que afina o faro para a notícia inédita: o famoso furo jornalístico.

 “Ser jornalista é entender de tudo um pouco para identificar o que impacta a moda em sentido amplo”, afirma a jornalista Andreia Meneguete. Isso mostra o quanto a moda está ligada ao Zeitgeist (espírito do tempo) e como reflete as transformações na política, na economia e em tantos setores que afetam a produção de roupas, as propostas de marcas e novos comportamentos de consumo.

No meio de tanta informação, é preciso buscar e cultivar fontes confiáveis e consistentes para fazer jornalismo sério. Checar fatos é garantia de credibilidade em qualquer mídia. “Ser jornalista exige observar a sociedade, ser responsável pela tradução de códigos e comportamentos sociais que nos rodeiam”, enfatiza Meneguete. Em tempos de fake news, todo cuidado é pouco.

Cultura e crítica de moda
Nem só de roupas vive o jornalismo de moda. Com as transformações da mídia para o ambiente digital, o bom jornalista deve estar atento ao movimento do mundo e à moda que acompanha esse ritmo.

Desfiles abandonaram salas abarrotadas de flashes e se proliferaram em alta resolução com criatividade, inovação e certa dose de escapismo. Cenário, trilha sonora, efeitos especiais, casting e tantos outros formatos deram à passarela uma nova função que deixa de observar apenas a roupa em movimento. Com olhos e sentidos bem abertos, a crítica lê a moda com lentes de aumento para avaliar estilos, apostas e percalços de criações e criadores.

“Ser jornalista exige observar a sociedade, ser responsável pela tradução de códigos e comportamentos sociais que nos rodeiam”, enfatiza Andréia Meneguete.

Dando à moda um viés cultural, tecidos, cores e modelagens são vistos em um conjunto social. Por isso, para entender tantos conceitos e criações, a cultura de moda é tão essencial para perceber significados e referências passarelas afora. Esse olhar apurado vai além ao relacionar o que estamos vivendo em face de como a moda reflete esse pulso do mundo. Um movimento de mão dupla impulsionado pela novidade em direção ao futuro.

Capas de revista são um dos exemplos de como a imagem na moda traduz o espírito do tempo. É o caso das edições brasileiras de Elle e Vogue ao retratar duas estéticas de corpo diferentes e que já sinalizam quebra de padrões.

Costurando ideias: o texto de moda
Em se tratando de jornalismo, momentos únicos são transformados em textos. Após o trabalho de apuração cuidadosa, o texto pede objetividade, clareza, rigor na escolha de palavras e formatos certeiros. Um bom trabalho jornalístico costura ideias para prender o leitor até a última linha.

Além do modelo clássico – o lead jornalístico que responde às perguntas O que? Quem? Quando? Onde? Porque? – a pauta é um documento que esclarece como o texto será escrito e publicado. Em um veículo de comunicação (revista, jornal ou site), editorias separam assuntos diferentes. A partir de um tema, o recorte será aprofundado por um especialista no assunto – as famosas fontes. Decidindo a existência da matéria, um bom gancho é necessário para publicar o texto na hora certa e com o apoio de imagens que ajudem a compreensão.

Semiótica da moda: cada revista trabalha a construção de uma imagem de moda levando para o seu leitor a sua linha editorial e forma de ver o mundo

Para muitos leitores, existem diferentes publicações. Gisele Bündchen é uma personagem bastante recorrente em matérias de moda. Inúmeros veículos já a abordaram de acordo com sua linha editorial. Se o corpo da modelo é alvo de um portal de saúde, o convívio com a família e a educação dos filhos é a chamada de capa de uma revista de comportamento feminina cujo público certamente já passou pela maternidade. Para cada linha editorial, um enfoque diferente.

Além das técnicas do jornalismo, é preciso ter conhecimento para enriquecer o texto. Assuntos que cercam a moda são importantes para produzir pautas cada vez mais antenadas. História da moda, Sociologia, comportamento de consumo, além de construção e posicionamento no ambiente digital servem de base para conhecer e abordar toda a engrenagem da moda. “Quem não lê, não escreve”, crava Andreia Meneguete. ”Ter fundamento para falar de moda e um olhar apurado são essenciais para textos com bons insights”, completa a jornalista.

Ponto de análise social: a jornalista Juliana Romano na Elle Brasil revelam novas formas de representação do corpo que ganha força com o tempo

 

Reunião de pauta para o futuro
“Cada vez que aparece um suporte, vemos como existem muitas maneiras de comunicar moda”. Essa frase da jornalista resume bem o que o jornalismo de moda tem passado nos últimos anos. Acompanhando transformações sociais e tecnológicas, os formatos da notícia também mudaram.

Boa parte dos jornalistas de moda foram formados por redações de jornal e revista. Formatos de mídia consagrados, a qualidade de textos e imagens cativou leitores por gerações. Editores de conteúdo, assistentes, redatores, repórteres e estagiários iam à loucura desde reuniões de pauta para programar edições até fechamentos com prazos insanos.

O conteúdo: a pauta é a alma da revista, é nela que se constrói o posicionamento da linha editorial adotada pelo veículo de moda

Hoje, a revista mudou suas estratégias para se manter relevante no mercado. O que somente as editoras de moda sabiam o que acontecia nos desfiles, as redes sociais escancaram para o mundo ao vivo. Com a conectividade sem fio e sem limites, surgiram outras formas de noticiar moda. “A revista deixa de ser apenas um produto impresso e se torna uma marca que se posiciona no universo digital”, reforça Andreia Meneguete.

Um caso que repercutiu bastante é a Elle Brasil. Em 2018, a revista impressa foi descontinuada pela Editora Abril. Três anos depois, o título volta pela Editora Papaki como um site, com podcast semanal e com edições impressas trimestrais em acabamento de luxo. Em questões de estilo, a revista, hoje, por ter uma durabilidade maior, prioriza pautas e textos mais analíticos, com conteúdo mais apurado e premium. São novos tempos e outra experiência de leitura.

Para a produção de conteúdo digital, o texto também se adaptou. Obedecendo às regras de SEO (Search Engine Optimization) que ajudam a ranquear textos em sites de busca, as matérias ficaram mais enxutas, com palavras-chave bem destacadas, boas imagens e timing certeiro de publicação para conquistar cliques e engajamento nas redes sociais.

Andréia Meneguete, jornalista e fpunder da IAM Inteligência de Moda, acredita que é possível pensar e fazer moda com consistência e construção de um pensamento crítico

De todos os momentos que já viveu no jornalismo, Andreia Meneguete afirma que a criação da I AM Inteligência em Moda foi um grande insight para reunir ideias, pessoas e muito trabalho.

Com toda a intensidade e a criatividade de sua criadora, a plataforma encontra seu jeito de falar de moda de forma colaborativa, com pautas consistentes sobre mercado, consumo e jornalismo de moda. “Vou percebendo cada vez mais que a I AM é mais do que uma plataforma de conhecimento. Não teria algo tão mais a minha cara do que a I AM”, se entusiasma a jornalista em post comemorativo aos 3 anos de sucesso do projeto.



ESCRITO POR Ivan Reis
Ivan Reis é mestre em Linguística e apaixonado por leitura, escrita e por todo o universo de jornalismo de moda, principalmente quando se fala em moda masculina.

Ivan Reis é mestre em Linguística e apaixonado por leitura, escrita e por todo o universo de jornalismo de moda, principalmente quando se fala em moda masculina.

COMPARTILHAR

COMENTÁRIOS

LEIA MAIS EM Moda

1 de junho

Jornada nas Estrelas: a Moda e o Espaço Sideral

O início de uma nova fase na Era Espacial pelo lançamento da nave Dragon Crew...

por Guilherme de Beauharnais
16 de abril

Mary Quant: a revolucionária feminista por trás da criação da minissaia

A história cheia de desejos por mudanças sociais na vida de Mary Quant, que morreu deixando um legado além da minissaia

por Júlia Vilaça
12 de maio

Deserto do Atacama: o lixão da indústria têxtil que recebe descartes de todo o mundo

Roupas de grandes marcas são descartadas em aterros clandestinos em uma das principais paisagens da América do Sul

por Renata Marins
18 de abril

Quiet Luxury: uma resposta para o tempo dos excessos e muitos ruídos

Em alta: o luxo silencioso ganha espaço e estética na discrição no qual simplicidade e elegância são palavras de ordem

por Alexandre Souta

ÚLTIMAS POSTAGENS

Arraste para o lado
6 de novembro

Negócios em foco: 7 Reflexões sobre o Mercado de Luxo com Carlos Ferreirinha

Em palestra no Iguatemi Talks, especialista do mercado de luxo traz insights do segmento para qualquer setor

por Brenda Luchese
5 de novembro

As estratégias da Jacquemus para se tornar “queridinha” no mercado de luxo

Entenda como a marca criada por Simon Jacquemus virou fenômeno e se tornou referência do conceito de novo luxo

por Rebeca Dias
5 de novembro

Cases de Luxo: como a Burberry e Gucci se conectaram com novos consumidores

Veja como as grifes de luxo se adaptaram para atender às transformações dos novos tempos e dos consumidores

por Rebeca Dias
5 de setembro

Fure a bolha: chegou a hora do streetwear brasileiro ganhar destaque global

A consolidação da moda de rua brasileira e como designers de marcas nacionais chegaram a showroom em Paris.

por Júlia Lyz
12 de maio

Copenhagen Fashion Week: conheça semana de moda internacional sustentável

Marcas do evento que visa promover a sustentabilidade precisam respeitar ao menos 18 critérios para inscrição

por Rebeca Dias
12 de maio

Onde está a moda inclusiva? Os desafios para encontrar roupas para o público PcD

Especialista sobre o assunta aponta o preconceito como principal fator para a falta de inclusão na moda

por Beatriz Neves
12 de maio

O QUE O SXSW 2023 E O ÚLTIMO PARIS FASHION WEEK TÊM EM COMUM?

Durante o maior evento de inovação do mundo, a inteligência artificial roubou a cena e nos faz refletir o papel da moda

por Giovanna Schiavon
12 de maio

8 Perfis do Tiktok para Acompanhar e Aprender Sobre o Mercado de Moda

Muito além do look do dia e de dancinhas, o Tiktok permite a democratização e acessibilidade aos conteúdos sobre moda

por Ana Flávia Gimenez