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Sem holofotes para Chanel: desfile de primavera é desconexo e sem criatividade

O último dia da semana de moda de Paris (06/10) contou com o desfile de primavera-verão 2021 da Chanel, uma coleção de 71 looks idealizados por Virginie Viard, diretora-criativa da marca. O desfile marca o último da grife no Grand Palais, museu parisiense que é palco das apresentações da marca desde 2005 e passará por uma restauração, reabrindo apenas em 2023.

Referência da locação foi o lendário letreiro de Hollywood. Virginie disse que tem pensado nas atrizes “que nos fazem sonhar tanto”, três em particular que tinham uma ligação estreita com a casa. Romy Schneider, Anna Karina e Jeanne Moreau apareceram no teaser do show, um pequeno filme mágico da dupla holandesa de fotografia Inez e Vinoodh. (Foto: The Impression)

Desde sua estreia no ano passado, após suceder Karl Lagerfeld Viard tem apostado em um visual despojado, leve, diferente da sofisticação rebelde que dominou a casa francesa durante as quase quatro décadas de comando Lagerfeld, mas sua última coleção se mostrou um compilado de clichês que evocam vagamente a estética Chanel existente no imaginário da moda.

A mundaça de texturas, tecidos, volumes e comprimentos ao longo do desfile deu a impressão de uma coleção dispersa e distante do glamour evocado pela temática hollywoodiana. (Foto | Divulgação)

Longe de Casa
Se suas últimas duas coleções estiveram próximas das raízes do ateliê, (cruise e alta-costura, inspiradas no Meditarrâneo e na Paris dos anos 80, respectivamente), dessa vez a estilista atravessou o Atlântico para mergulhar no universo cinematográfico de Hollywood. Mas enquanto o cenário da apresentação ostentou o nome da maison nos moldes do famoso letreiro californiano, os modelos desfilados nada tinham dos ares glamurosos do estrelato.

A mistura – quase aleatória – de texturas e tecidos foi, com pouca dúvida, o maior causador de desarmonia na coleção: um conjunto preto de paetês dividiu espaço com outro branco, de renda. Ambos foram desfilados ao lado de uma série de jaquetas de tweed e vestidos com e sem alças. As calças, em comprimentos diversos – desde culotes até pantalonas –, pareciam infelizes intrusas e um jeans (o único), combinado com uma simples camiseta branca, exalou uma jovialidade rapidamente combatida pela rigidez e sobriedade de um tailleur negro sobre uma camisa branca de golas largas (um lembrete nostálgico da estética de Karl Lagerfeld adotou para si mesmo).

Virginie Viard uniu elementos hollywoodianos (como o robe de camarim e os letreiros neon) ao universo Chanel, também referenciando diferentes momentos na história do ateliê. (Foto: Reprodução)

Luz, Câmera, Chanel
A ambientação hollywoodiana já é familiar para a Chanel – e não apenas graças a Lagerfeld, que reviveu a marca na década de 80 e a transformou em presença garantida nos mais importantes tapetes vermelhos. Sua fundadora, Coco Chanel, teve passagem pela cidade brilhante (Tinseltown, como é apelidada por seus moradores) ainda no início da década de 1930, quando vestiu a atriz Gloria Swanson para o filme “Tonight or Never”. Duas décadas mais tarde, a loira lendária Marilyn Monroe assumiria que, para dormir, usava apenas algumas gotas do perfume Chanel nº5.

A paixão de Virginie Viard pelo passado do ateliê é louvável, mas a carga intensa de referências presentes na recente coleção se provou uma atração fatal. Já no início do desfile, uma jaqueta de ombros largos – característicos nos anos 80 – foi seguida por vestido longo, não apenas no estilo dos anos 30, mas com a reprodução de uma estampa de 1939, recém descoberta entre os acervos da Chanel. Outras peças, como uma bermuda rosa claro, acompanhada de um paletó no mesmo tom, usado por cima de um colete de abotoamento duplo azul e uma camiseta preta (ambos com aplicações metálicas e cobertos pelo nome da marca), evocam a estética masculinizada preferida por Coco desde o início de sua carreira.

Essa rigidez se contradiz com o movimento dos últimos vestidos desfilados – um longo branco transparente, por exemplo, estampado exageradamente com o nome Chanel – enquanto a sobriedade é desafiada pelas peças que ostentam traços em neon (simulando painéis hollywoodianos), assim como pelo despojamento de outros modelos (como um roupão rosa claro debruado em contornos pretos, que facilmente poderia ser o traje de camarim de uma grande atriz).

Corta!
O desânimo provocado pela coleção se intensifica diante da aposta bem sucedida da marca no campo das relações públicas. Por meio de convites e vídeos de divulgação, a Chanel engajou imprensa e influenciadores, despertando o desejo de luxo como nenhuma outra marca conseguiu durante os meses de COVID-19. A expectativa foi grande, a queda talvez ainda maior.

O resultado é a impressão de que Virginie ainda não encontrou uma estética confortável para explorar em suas coleções para a maison Chanel. E apesar das últimas temporadas não oferecerem margem para duvidar de seu talento, deixam a sensação da necessidade de foco e refinamento. Quem sabe uma sequência? O próximo desfile da marca (e último de 2020) será o Métiers d’Art, e está programado para ocorrer em 1º de dezembro, no histórico Château de Chenonceau, no Vale do Loir, perto de Paris.


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