VOCÊ ESTÁ LENDO >> Coolhunting, espírito do tempo e consumo: reflexões e aprendizados com Iza Dezon
POR Andreia Meneguete | 1 de agosto

Com um falar objetivo e vibrante, a pesquisadora tendências Iza Dezon, que representa no Brasil a operação do bureau de pesquisas de tendências PeclersParis, é bem o tipo de pessoa que a gente deseja ficar por perto cinco minutinhos a mais só para ouvir o que ela sabe sobre pessoas, mundo, consumo e inovação. A gente garante: ela é pura inspiração e good vibes.

Aprendi a me servir da semiótica para organizar uma pesquisa sociocultural seguindo pilares mapeados, porém mutantes, explica Iza Dezon. (Foto: Divulgação)

A Iza Dezon exerce uma daquelas funções curiosas que fascinam a gente. No caso dela, a de coolhunter, profissional que pesquisa tendências de consumo e transforma isso em relatórios para empresas entenderem o que os clientes vão desejar consumir no futuro. De forma prática, a profissional – juntamente com uma equipe multidisciplinar – traduz os sinais e comportamentos emergentes das pessoas e mostra como se pode explorar isso de um jeito mais assertivo quando se fala em produto e comunicação.

Parte de pesquisa da PeclersParis sobre cores e novos comportamentos (Foto: Divulgação)

Por aqui, um bate-papo bem descontraído – mas bastante informativo – sobre as curiosidades que envolvem a profissão de coolhunter e também um olhar reflexivo sobre o consumo nos dias de hoje.

O que envolve o trabalho de uma pesquisadora de tendências e como podemos aplicá-lo de forma tangível dentro da nossa sociedade quando falamos de mercado?
Eu diria que o pré-requisito é prestar atenção em tudo o que está acontecendo ao seu redor – em uma escala macro (política, economia, tecnologia e cultura. Cada profissional ou agência especializada neste setor segue uma metodologia própria, mas, fundamentalmente, colecionamos sinais que indicam mudanças de comportamento de consumo e preferências estéticas – pois o design tornou-se indispensável no seculo 21. Meu trabalho, particularmente, é transversal e tem contato com diversas áreas.

Claro, que como diretora do escritório brasileiro da Peclers, representado pela a minha empresa, a Dezon, o meu cotidiano é muito menos sonhador e focado em conteúdo do que quando integrava a equipe da agência na matriz em Paris. Por isso, hoje conto com diversas colaboradoras. Isto dito, o que mais me inspira no meu trabalho é saber que todo tipo de consumo de cultura contemporânea (livros, revistas, eventos de diversas espécies, filmes, músicas, exposições) alimenta a pesquisa e aumenta o horizonte. A chave está em exercitar o instinto para captar percepções e decifrá-las. Costumo dizer que trabalhar com pesquisa de tendências é brincar de ligar os pontos.

De forma prática: como podemos captar de um jeito assertivo o espírito do tempo? E o que esse fenômeno tão sensível tem para nos ensinar enquanto práticas sociais: sejam em relações, consumo, economia, política?
Eu aprendi tudo o que sei sobre pesquisa com a PeclersParis, uma agência pioneira com 50 anos de inovação, afinal de contas tradição seria contraditório para quem fala de futuro. Com um time de experts incríveis como Emma Fric e Pierre Bissueil, aprendi a me servir da semiótica para organizar uma pesquisa sociocultural seguindo pilares mapeados, porém mutantes, como: questões de identidade, o fenômeno colaborativo, o relacionamento com a natureza, etc.

Toda a dificuldade e sutileza reside em identificar movimentos que estão surgindo e avaliar quais têm capacidade de prosperar. A beleza das tendências é que com muita prática é possível perceber os futuros possíveis e desejáveis que podemos arquitetar juntos. Em tempos sombrios, as maravilhas e inovações pensadas por seres brilhantes mundo afora são ofuscadas por mídias muito preocupantes e apavorantes. É fácil esquecer quanta coisa boa está acontecendo. Ao concentrar nossas energias na abundância criativa, podemos nos tornar verdadeiros agentes de mudança – pessoas, funcionários, pequenos empreendedores e até grandes empresas. E, logo, com uma dose (necessária) de otimismo, podemos revelar, de forma estratégica e calculada, direcionamentos construtivos.

Recentemente estive em uma palestra com o Michel Maffesolli, e ele falou muito sobre o espírito do tempo como um imperativo categórico, que nos faz entender realmente os desejos coletivos de uma sociedade e como isso explica tudo diante do que estamos vivendo em ambientes macros, como política e economia. Trazendo para o nosso universo, olhando para as ‘novas perspectivas de consumo de moda’, o que podemos entender de tendências de comportamento que realmente vieram para ficar e que todo mundo que trabalha como moda/varejo deveria ficar atendo?
Grande Maffesolli, sempre genial. São muitas vertentes, mas eu diria que entender a importância de reavaliar o verdadeiro valor das coisas é a espinha dorsal de todos os outros movimentos. Entendo dizer que, enquanto o valor da mão de obra (ética) e o custo ambiental (ecologia) da industria não for ajustado, as pessoas vão ter o que falar – principalmente da Geração Z para baixo. Pessoas, matérias-primas e processos: todos os pontos da cadeia estão sendo questionados. A questão da inclusão também reverbera no mesmo ponto: enquanto não encararmos que o comportamento excludente das marcas e comunicações estão ‘fora de moda’, haverá repercussão negativa e críticas nas redes sociais.

O futuro já não é mais como era antigamente? O que as tendências falam sobre essa máxima? O possível amanhã diante de tudo que as macro tendências apontam.
O futuro é construído hoje, e só as ações individuais e coletivas do cotidiano podem erguer um futuro desejável.

Se a gente pudesse invadir a sua biblioteca pessoal, o que teria de indicação mais preciosa quando o assunto é Moda e Tendência?
Uma mistura mucho louca de dicionários, livros de arte, muita fotografia, poesia, literatura, livros de referências, autobiografias, catálogos de exposições, feiras ou eventos, textos sobre sociologia do consumo, uma extensa coleção de cadernos da Peclers… Pouca coisa sobre tendências para dizer a verdade.

FIQUE DE OLHO:
Quer aprender mais sobre o assunto? Iza Dezon ministra um curso em agosto sobre ‘Como Captar Tendências de Comportamento + Moda’, no Lab Fashion. Para saber mais informações é só clicar aqui e se inscrever!



ESCRITO POR Andreia Meneguete
Founder @iam.inteligenciaemmoda, lecturer na @nafaap e @iedsp. Consultorias, treinamentos e palestras comunicação, varejo de moda e beleza.

Founder @iam.inteligenciaemmoda, lecturer na @nafaap e @iedsp. Consultorias, treinamentos e palestras comunicação, varejo de moda e beleza.

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